A reação da torcida do Coritiba após o empate com o Fluminense e o rebaixamento do clube para a Série B do Campeonato Brasileiro foi chocante tanto para quem acompanha futebol quanto para quem não é fã de esportes. A decepção com o resultado foi a senha para que torcedores invadissem o gramado e transformassem o Estádio Couto Pereira, em Curitiba, em campo de guerra.

A onda de violência não poupou ninguém. Jogadores, membros das comissões técnicas, o trio de arbitragem e até policiais foram atacados pelos invasores. Pedaços de paus e cadeiras transformaram-se em armas nas mãos dos vândalos.

O estrago extrapolou os limites da praça esportiva e espalhou-se pelas ruas da Capital. Carros e pontos de ônibus foram depredados. Uma mulher perdeu três dedos da mão após a explosão de uma bomba caseira quando voltava para casa depois do trabalho.

O episódio resultou na prisão de dezessete torcedores. O clube também não ficou impune. Anteontem, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) condenou o Coxa a perda de 30 mandos de campo e multa de R$ 610 mil.

O que leva, no entanto, pessoas que saem de casa para assistir a uma partida de futebol a praticar atos de selavageria? Uma hipótese é o comportamento diferenciado do torcedor quando está em grupo, protegido pela máscara do anonimato proporcionado pela presença de um grande público.

Para o psicólogo Alex Eduardo Gallo, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em educação especial, as pessoas são agressivas por natureza e sentem-se à vontade para praticar atos de violência quando estão no meio de uma multidão. Nesta entrevista, ele explica que a agressividade é uma forma de extravasar frustrações. E que este comportamento é resultado da educação recebida em casa e nas instituições de ensino. ''A família e a escola são capazes de aumentar ou diminuir a agressividade. A criança deve saber que não vai ter tudo o que quer'', alerta.

O que explica o comportamento agressivo quando a pessoa está em grupo como no caso da torcida em jogos de futebol?
É preciso considerar o que leva a pessoa a ser agressiva individualmente. O ser humano é agressivo por natureza. Nós somos animais predadores e temos um instinto natural para a agressividade. No entanto, existem alguns fatores que são capazes de aumentar a resposta agressiva, como o estresse, a dor e os conflitos familiares e profissionais.

É importante ressaltar que no grupo a pessoa tem o incentivo dos demais. Ela ganha um reforço que não teria individualmente. Isso acaba impulsionando. Uma única pessoa pode ficar com medo de tomar uma atitude mais agressiva e sofrer as consequências do seu ato. Mas no grupo ela sente-se mais protegida.

A dificuldade de punir todos os envolvidos em uma barbárie, como o epsódio ocorrido no Couto Pereira, é um estímulo para atos violentos?
Isso acaba incentivando, pois a pessoa pode ser aquela que não é punida. No meio do grupo não é ela que está agredindo e sim todo o grupo. A pessoa não tem identidade nessas situações. Ela é anônima. Muitas vezes agindo em grupo não há uma consequência.

O comportamento agressivo é uma forma de extravasar as frustrações do dia a dia?
Pode ser. Como a pessoa aprende a lidar com as frustrações? Como a família ensina isso às crianças? Quando a criança quer alguma coisa e não ganha muitas vezes ela chuta algo ou alguém e não pensa por que não está tendo o que quer. Essa criança chega na vida adulta sem saber lidar com problemas e frustrações. Reage de forma agressiva por não conhecer outra reação.

Para extravasar a raiva deve-se utilizar formas construtivas e não destrutivas. A pessoa deve sair para caminhar e gastar energia, deve praticar um esporte, desde que não seja com o objetivo de machucar alguém. Uma pessoa que não tem muita paciência pode se envolver com música, arte. Tudo isso ajuda a pessoa a se controlar.

E como os pais podem ensinar os filhos a lidar com frustrações?
A criança deve saber que não vai ter tudo o que quer. O que ela ganha ou perde tem que ser compatível com o comportamento dela. Se a criança foi bem na escola pode ser premiada por isso. Mas se não faz a lição e não estiver com boas notas não deve poder passear no final de semana, por exemplo. É muito importante que a criança entenda por que ela está ganhando ou perdendo algo. Dessa forma ela entende que para tudo na vida há uma consequência.

Infelizmente muitos pais não suportam ver a frustração dos filhos e acabam dando tudo o que eles querem. Essa criança cresce achando que pode tudo.

Quem participa de atos violentos como o do Couto Pereira deve ser punido como criminoso comum?
A pessoa deve responder por um crime comum. Muita gente alega que a atitude agressiva aconteceu em um momento de insanidade, mas essa alegação não é plausível. Os agressores devem ser punidos, pois deveriam ter outro comportamento. Eles devem ser responsabilizados pelos seus atos, pois outras pessoas saíram vitimadas.

Por que algumas pessoas cometem atos violentos e outras conseguem lidar com as frustações?
Depende do quanto a pessoa aprendeu a se controlar, o quanto a família trabalhou isso com a criança. A família e a escola podem colaborar para diminuir essa situação. Fiz um estudo para constatar os fatores reponsáveis pela agressividade dos adolescentes. Conclui que a família e a escola são capazes tanto por aumentar quanto por diminuir as atitudes violentas. Quando a escola pune demais e não valoriza nada do que o aluno faz de bom acaba proporcionando um aumento da agressividade porque o aluno se volta contra a fonte de punição.

A forma como a família ensina a lidar com a frustração também pode diminuir a agressividade. Muita gente aprende a ser agressiva com os próprios pais. A criança não pode aprender que bater é uma forma de resolver os problemas.

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