Banir costume do trote violento
Sempre que um episódio de violência acontece, anuncia-se imediatamente o ''rigoroso inquérito'', a busca dos culpados e a ''punição exemplar''. Mesmo que isso fosse o fundamental, tal punição no mais das vezes não ocorre. Mas o que se espera não é propriamente isto, mas que violências programadas como estas deixem de acontecer, caso da truculência de organismos de repressão, frequentemente denunciados, e dos trotes carregados de brutalidade. Caso da ''delicada'' recepção aos novatos, no 20º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Curitiba, divulgada domingo em rede nacional de televisão. Trotes violentos em certas instituições não são novidade para ninguém, mas quando essas monstruosidades chegam ao conhecimento público começa-se a ouvir dos algozes e seus comandantes as declarações de que tal é um caso isolado, que não é costumeiro, que eles (chefes) não sabiam, que isto é inadmissível e que os culpados serão punidos. Afastamentos ocorrem, como medida estratégica perante a opinião pública, mas depois a prática continua. A muito custo vem sendo eliminado o barbarismo no trote aos calouros das universidades brasileiras. Como escreveu uma leitora, ontem, na seção de cartas deste Jornal, se militares fazem isso com seus iguais, imagina-se o que fazem com o comum dos cidadãos! Na verdade, não imagina-se; sabe-se. De pouco adiantará afastar chefes, em tais casos, mas importa que esse costume seja extinto, para que passe para a história como coisa dos tempos da barbárie. Porque a cada ano novos estreantes surgem, e os sádicos estão de prontidão, aguardando-os. Quem viu as cenas da tevê (gravadas por um dos personagens e que viriam a chegar ao conhecimento público) ficou horrorizado, porque a ''brincadeira'' teve afogamento em balde d'água, choque elétrico, chinelada, ameaça de queimadura com ferro de passar roupa e cenas de humilhação. Doze sargentos da 2 Companhia de Fuzileiros, conhecida como ''Pantera'', estão sendo investigados como agentes dessa tortura. ''Foi fora do expediente e não fez parte das atividades de instrução dos sargentos'', justificou o comandante do 20º Batalhão. Então, fora do expediente ao que se depreende pode, mesmo que no recinto interno da corporação. E se não faz parte da instrução, vê-se que faz parte do rito, até porque sargentos declararam que a ''brincadeira'' é comum entre eles. Percebe-se logo qual a modalidade dessa brincadeira. A documentação e a revelação pública do caso deve servir para uma determinação dos comandos superiores das Forças Armadas proibindo o trote violento, que, se até agora acontece, é porque é tolerado, e como tal permitido.





