Joel Samways Neto
O que houve na quarta-feira da semana passada, dia 15 de março, no edifício Castello Branco, em Curitiba, foi algo muito mais grave do que foi divulgado pela imprensa. Naquela manhã ensolarada, um grupo de, supostamente, funcionários de escolas da rede pública de ensino reuniu-se defronte do prédio para uma manifestação por reposição salarial. Uma kombi, caixas-de-som, discursos, apitaços, palavras-de-ordem, o usual das reivindicações, o democrático, o legítimo. Mas ao grupo foram se juntando mais e mais pessoas, e antes do final da manhã já era uma multidão aproximando-se das entradas do prédio, endereço principalmente das Secretarias de Estado da Administração (SEAD), do Planejamento (SEPLAN), do Ipardes e da Procuradoria Geral do Estado (PGE). Os vigilantes fecharam as portas. Os manifestantes grudaram nelas, gritando que queriam entrar para falar com a secretária da Administração. Portas e paredes de vidro, de repente estouraram uma delas e entraram no saguão. Abriram a outra porta e postaram-se de guardas, impedindo o acesso. Em seguida, os manifestantes foram até as entradas dos corredores que levam à SEAD, à SEPLAN e à PGE... E fecharam as portas, amarrando-as com fio de luz! Quem estava nessas repartições, servidores públicos, cidadãos tratando de seus interesses ou simplesmente visitantes, não poderiam sair. E quem estava lá fora não entrava. A sensação exata foi de um sequestro – covarde, como são todos os sequestros –, em que pessoas inocentes, trabalhadores, homens de bem, contribuintes, foram feitos de reféns, tiveram sua liberdade de locomoção subtraída a fim de ser trocada por um resgate que não poderiam pagar: uma reunião com a secretária da Administração, uma negociação favorável, o atendimento imediato das reivindicações. Enquanto isso, os reféns eram mantidos em cárcere privado. Dentre os servidores encarcerados, alguns procuradores do Estado que precisavam atender aos processos judiciais, com seus prazos exíguos a correr, em causas envolvendo centenas de milhões de reais – de dinheiro público! Também não puderam sair. E os carcereiros, ali, ameaçando de agressão aos que tentassem furar o bloqueio, injuriando continuamente as pessoas que tentavam dialogar para resolver a questão. E as horas foram passando. Ao final da tarde, pais e mães começaram a se exasperar. Tinham de ir buscar seus filhos na creche, na escola, alguns estavam com seus filhos adoecidos, e os carcereiros, absolutos, negavam-se a dar ouvidos aos apelos. Foi simplesmente patético. Funcionários e procuradores tentando resolver compromissos por telefone, comunicando-se com quem tinha ficado lá fora. Uma funcionária passava folhas de petições por frestas das paredes de vidro, para que os guardas-mirins as levassem ao Fórum e os prazos não fossem perdidos. Algumas mães já estavam chorando, implorando para que as deixassem sair. E nada. Algumas das manifestantes, muito mais truculentas do que os homens, berravam que também tinham filhos desamparados, e não abriam as portas. Um funcionário do Ipardes, um grandalhão, tentou furar o cerco. Quase foi linchado pela multidão. Um quadro horrível. E a polícia? Onde estava a polícia? Aliás, o presidente da Associação dos Professores do Paraná (APP-Sindicato), que certamente não trabalha mais com a educação, desafiava insistentemente as vítimas a chamarem a polícia. Mas claro que elas já tinham chamado. Porém, no local havia só uma meia dúzia de policiais militares. Por que não chamaram reforços? Talvez porque, no meio da confusão, alguém entendeu que era necessário um mandado judicial para o uso da força policial. Por quê?? Por acaso o proprietário que está tendo sua casa assaltada precisa de ordem judicial para a intervenção policial? O teatro de operações era de flagrante delito. Flagrante esbulho possessório, flagrante cárcere privado, flagrante ameaça, flagrante constrangimento ilegal, flagrante injúria. E as vítimas em estado de flagrante frustração, decepção, por serem trabalhadoras, pagarem impostos, e não poderem sequer ver garantido o seu direito fundamental, elementar, básico, de ir, vir e permanecer. A SEAD disse que só negociaria com a desocupação do prédio. Os manifestantes (alguns com bandeiras do MST) gritavam que estavam vindo colchões e provisões para passarem pelo menos dez dias. As vítimas estavam aterrorizadas (é isso que o Ministério Público chama de ‘‘tortura psicológica?’’). Conseguida a ordem judicial, lá pelas nove horas da noite, a SEAD resolveu negociar com os terroristas (por quê? Para demonstrar que terrorismo compensa?). O prédio foi desocupado. E, pasme leitor, as vítimas, ao saírem, passaram por um corredor de manifestantes-terroristas, que, de mãos dadas, cantavam o Hino Nacional em ritmo de desdém contra os servidores humilhados – muitos dos quais eleitores que votaram no atual governo estadual, para varrer do Paraná o autoritarismo requiônico e restabelecer a autoridade democrática. Valeu a pena? Se os terroristas ficarem impunes, não.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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