ARTIGO 21 DE JULHO QUARTA -

Bandido bom é bandido morto?

A trivialização do mal e da violência é a expressão mais clara de um vazio de pensamento ético, moral e da fé cristã autêntica

Diácono Caio Matheus Caldeira da Silva
Diácono Caio Matheus Caldeira da Silva

 

 Lázaro Barbosa, 32 anos, foi capturado e morreu em “confronto” armado com a polícia em Águas Lindas de Goiás
Lázaro Barbosa, 32 anos, foi capturado e morreu em “confronto” armado com a polícia em Águas Lindas de Goiás | Reprodução
 



Hannah Arendt, uma das filósofas políticas judias mais influentes do século 20, em sua obra “Eichmann em Jerusalém”, redigida enquanto cobria jornalisticamente os julgamentos de ex-oficiais nazistas, na cidade de Jerusalém, fez uma oportuna reflexão sobre o conceito da “banalidade do mal”.


Segundo Arendt, as experiências humanas sofreram um processo de desenraizamento em relação à realidade das coisas. Ou seja, as pessoas tornam-se membros “fanatizados” de grupos que são intangíveis tanto pela experiência quanto pelo argumento racional e empírico; a capacidade de sentir empatia e compaixão são alienadas ao ponto de não mais se escandalizarem com o horror, a violência, a tortura e até a morte.


Nas últimas semanas, vivenciamos pelos meios de comunicação social a busca pela polícia de Goiás por Lázaro Barbosa, 32 anos, que era suspeito de matar uma família em Ceilândia, no Distrito Federal, possuía uma extensa ficha criminal, fugiu três vezes da prisão e era acusado de vários outros crimes.


Após 20 dias, Lázaro foi capturado e morreu em “confronto” armado com a polícia em Águas Lindas de Goiás. A situação criou uma agitação nacional, nos mais diversos âmbitos, seja dos meios de comunicação tradicional até os aplicativos de entretenimento como o TikTok, Facebook e WhatsApp. Fotos e vídeos do corpo de Lázaro com mais de 40 tiros rodaram em grupos de whatsApp. Pessoas satirizando a sua morte e a sacralidade de sua vida com termos inoportunos como: “CPF cancelado”, “Bandido bom é bandido morto” entre várias outras.


Durante esses dias observamos uma caçada frenética, com mais de 270 agentes, que conjuntamente com a sociedade brasileira não o via mais como uma pessoa, um ser humano, mas como uma praga que deveria ser exterminada/banida da realidade, do convívio humano. Sua apreensão não foi humanizada, não teve chances, seu corpo ratifica isso – não foi legítima defesa, foi assassinato brutal.


Vídeos que circularam pela internet mostraram seu corpo sendo jogado num carro de bombeiros como se fosse lixo e, logo em seguida, sua morte sendo comemorada por uma parcela de agentes da segurança pública.


A morte de Lázaro não foi só uma falta dos policiais, mas de toda uma sociedade que incitou a raiva, o ódio e a violência, que justificou esse momento, que é fruto de uma sociedade que tem a violência arraigada em sua cultura, onde se existe a descrença numa justiça reparadora, onde a ótica higienista é prevalecente por meio de linchamentos sociais, onde a “justiça” é feita pelas próprias mãos.



No Brasil acontece um linchamento a cada dois dias. É inconcebível, em nosso tempo, ainda pensarmos uma justiça da justa medida grega, “olho por olho, dente por dente”. Não vivemos em um estado hobbesiano, onde a natureza humana é regida pelo egoísmo; onde a violência contra o outro justifica a autopreservação.



A teologia e a Igreja têm uma palavra profética de denúncia para esse fato social. “[...] escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência [...]” Dt 30,19. A sacralidade de cada vida humana é importante, desde sua concepção até sua morte natural. “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo” - papa Francisco.


Foi lastimável testemunhar cristãos (ou que se dizem) caindo na prática do escárnio da perda de uma vida, que embora tendo seus erros, merece ser respeitada e dignificada, porque é quista e amada por Deus (Gn 1,26-28).


A máxima proposta por Arendt é mais atual que nunca. Deixamos de ter racionalidade diante das coisas que praticamos. A trivialização do mal e da violência é a expressão mais clara de um vazio de pensamento ético, moral e da fé cristã autêntica onde a banalidade do mal se instala e destrói dentro dos homens e mulheres a humanidade.


A humanidade precisa novamente se tornar humana.


Diácono Caio Matheus Caldeira da Silva é mestre e doutorando em Teologia pela PUCPR em Londrina


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