Bancos públicos têm menor volume de crédito em nove anos
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sábado, 01 de março de 2003
Sheila D'Amorim<BR>Agência Estado 
Brasília A participação dos bancos públicos no volume total de crédito concedido pelas instituições financeiras no País é a menor dos últimos nove anos. Na implementação do Plano Real, em junho de 1994, as instituições oficiais, com destaque para o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que representam quase a totalidade das operações públicas, respondiam por 58% do mercado de crédito brasileiro. Essa participação atualmente é 38%.
''Boa parte dessa queda se deve à reestruturação dos bancos oficiais realizada em junho de 2001'', justifica o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes. Em 2001, o governo federal fez uma limpeza geral na contabilidade dos bancos públicos que envolveu, além do aporte direto de capital, a retirada de créditos ruins que foram transferidos para o Tesouro Nacional. ''Mas essas instituições ainda têm um papel fundamental no desenvolvimento do mercado e muito espaço para crescer'', completa Lopes.
O problema é que, apesar dos apelos dos presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que as instituições públicas encontrem formas de estimular o mercado para compensar os recentes aumentos de juros, atual conjuntura não favorece a expansão do crédito. A combinação de juros altos, aumento da parcela dos depósitos dos bancos que fica guardada no BC, queda na renda e medo do desemprego se reflete no estoque de empréstimos concedidos em comparação ao Produto Interno Bruto (PIB).
No mês passado, essa relação do crédito com o PIB atingiu o pior nível dos últimos 11 anos: 23,8%. Desde abril de 1992, quando o estoque das operações de créditos correspondia a um pouco mais de 22% do PIB, não se registrava um volume tão baixo. ''O cenário está ruim e é arriscado emprestar e tomar dinheiro emprestado'', avalia a analista de mercado da consultoria GlobalInvest, Cristiane Reinaldim. Para ela, não há espaço para os bancos públicos aumentarem o crédito como quer o presidente porque o custo está elevado e as empresas não têm como repassá-lo para os preços diante de uma demanda tão fraca.
A primeira consequência se o governo insistir que os bancos oficiais aumentem a oferta de crédito pode ser uma redução da eficácia da política monetária, segundo a economista sênior do banco BBV, Zeina Latif. A manipulação da taxa de juros é o principal instrumento que o BC dispõe para tentar manter a inflação sob controle. No entanto, a forte oscilação do câmbio e o resíduo inflacionário que ficou da crise financeira de 2002 já têm gerado muita dificuldade para equipe econômica estabilizar os preços. ''Estimular a expansão do crédito reduzirá ainda mais a eficácia da política monetária'', avalia a economista. O melhor, defende Latif, é tentar aprovar mudanças que permitirão a oferta de mais crédito no médio e longo prazo. Para isso, entre outras coisas, é preciso avançar com a discussão envolvendo melhora no sistema de garantias das operações e redução da carga tributária.
Para o diretor comercial do Banco do Brasil, Antônio Francisco de Lima Neto, não dá para ''fazer mágica'' nesse momento. Ele defende que, este ano, o BB deverá insistir na política bem sucedida que vem sendo adotada especialmente na área de pessoas jurídicas. ''Segmentamos a clientela, criamos estruturas próprias de atendimentos, mapeamos muito bem os riscos envolvidos nas operações e estamos indo à luta'', diz. Os resultados, garante, são bastante animadores.


