Duas publicações de ontem deste Jornal mostram, de um lado, os bancos cobrando tarifas acima da inflação, e de outro os bancários em greve solicitando reposição salarial, que a classe patronal não quer dar. Um número chama a atenção: o faturamento decorrente dos serviços (as tarifas) cobre 100% da folha salarial dos bancos e ainda sobram 30%, conforme a afirmação de Herivelto Rodrigues, presidente da empresa de consultoria Austin Rating. Esse excedente é uma substancial importância que poderia ser destinada aos reivindicantes. Até porque quem acaba pagando o salário dos empregados dos bancos é o cliente, por via das tarifas de toda a ordem e tamanhos que vão entrando em sua conta corrente. Não são nenhuma novidade os lucros estratosféricos das redes bancárias, num país de muitas licenciosidades favorecidas pelo sistema governamental, e no momento em que 190 mil bancários de todo o Brasil estão em greve, chama a atenção essa disparidade entre o ganho dos bancos e o dos bancários. Houvesse consciência, nem precisaria que uma greve ocorresse, porque existe excesso de dinheiro oriundo da lucratividade, não se tratando portanto do caso em que empresas e instituições simplesmente não podem praticar grande generosidade salarial se lhes falta suporte. À exceção de três, todas as tarifas bancárias continuaram subindo e figuram entre os mais substanciosos itens de receita dos bancos, se não bastassem os juros extorsivos. Como não existe grande concorrência entre os conglomerados bancários, por isso formando-se um verdadeiro cartel, trocar de banco pouco resolve, e melhor seria - como recomendam defensores da economia popular - nunca valer-se dessas instituições, especialmente quando o vínculo tem a ver com o uso de dinheiro dessa fonte. A greve afeta 24 Estados, e do universo de 400 mil bancários no País, metade parou. No Paraná são 220 agências fechadas. Os grevistas pedem 2,85% para repor a inflação dos últimos 12 meses, 7,05% de aumento real e melhoria na participação nos lucros dos bancos. As contrapropostas não agradam os bancários. Greves são sempre ausências de diálogo, e no caso presente a reivindicação de melhor ganho salarial confere uma característica especial a esse pleito e a essa paralisação - frequentes no setor - porque não entra em discussão a capacidade de atendimento, que é vasta e folgada. O ponto que se ressalta é a esfomeada gana dos bancos, cada vez mais insaciável. Não se trata, no caso, de os bancos não poderem dar, mas de não desejarem dar.

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