Banalização das CPIs - Cláudio Slaviero
Banalização das CPIs
Cláudio Slaviero
O noticiário brasileiro dos últimos meses tem deixado a população nacional e os observadores internacionais de cabelo em pé com o grau de envolvimento de nossas autoridades em denúncias de fraudes, desvios de recursos públicos, abuso de autoridade e corrupção. Cada vez que abrimos um jornal, sintonizamos uma estação de rádio ou ligamos a televisão nos deparamos com fatos que envergonham e preocupam a Nação.
A vergonha nasce da nossa indignação. Quando nos olhamos no espelho, vemos que somos cidadãos enganados por aqueles que elegemos. Somos obrigados a reconhecer, da forma mais dolorosa possível, que ainda não fomos capazes de eleger pessoas competentes e honestas para cuidar dos interesses públicos.
Até quando suportaremos tamanho abuso e desrespeito com o que é público? Pobre Brasil! Por outro lado, todo esse processo de investigação das estruturas públicas que explodiu no País, principalmente através da ação do Ministério Público e das CPIs, está forjando uma nova mentalidade, exigindo de cada cidadão uma reflexão mais profunda sobre nossas instituições.
Como não podemos mais ficar alheios a tudo o que vem ocorrendo, iniciamos um permanente processo reflexivo que suscita alguns questionamentos sobre o trabalho desenvolvido nos últimos meses pelo MP e pelas CPIs.
Antes de mais nada, é preciso exaltar a ação dos procuradores e dos parlamentares na busca da verdade e na defesa dos interesses públicos. Tanto o Ministério Público como o Congresso Nacional, através das CPIs, estão exercendo suas funções fiscalizadoras, com o objetivo de corrigir erros e derrubar estruturas corrompidas em nossas instituições. Esse é um trabalho que merece o reconhecimento e o apoio de toda a Nação brasileira.
Grandes avanços temos tido nesse sentido. Quem diria, há algum tempo, que hoje estaríamos prendendo autoridades e figurões, cassando deputados e até votando o impedimento de presidente da República e prefeito de capital?
Entretanto, vemos com preocupação o rumo que algumas investigações estão tomando. A atenção dada pelos meios de comunicação aos trabalhos das CPIs e do MP direcionou os holofotes sobre alguns parlamentares e procuradores, transformando-os em estrelas.
Admitimos que a projeção e a visibilidade são inevitáveis, em face da exploração pública dos assuntos que estão sendo investigados. Mas não podemos aceitar que este seja o propósito principal dos integrantes das CPIs e dos membros do MP. Talvez motivados por flashes e holofotes, alguns parlamentares extrapolam os limites do respeito, comprometendo todo o excelente trabalho das investigações.
Constatamos algumas vezes a forma presunçosa, debochada, arrogante e desrespeitosa com a qual alguns membros da CPI dirigem-se aos depoentes e ao público que acompanha os trabalhos da comissão. Além de certa prepotência, apressam-se em apresentar à opinião pública nomes de possíveis envolvidos em supostos crimes, sem que existam provas materiais. São prejulgamentos que merecem melhor reflexão.
Recentemente, um deputado federal vazou informações sobre o desvio de recursos públicos para a conta corrente de uma determinada pessoa. Dias depois, descobriu-se que o suposto depósito e saque fora feito em um final de semana e que não há qualquer registro de depósito milionário na conta corrente divulgada.
Quando situações como esta acontecem, nada é feito. As retratações e a divulgação da verdade normalmente são tímidas, se comparadas ao alarido das denúncias. Até o tamanho das fotos ganha tratamento bastante diferenciado entre a publicação da denúncia e da defesa, mesmo que a primeira não seja verdadeira.
Então, é hora de parar e pensar. Não queremos que os avanços alcançados pelos trabalhos dessas CPIs sejam comprometidos. Esperamos energia na condução dos trabalhos e justiça em seus pareceres. Este é o resultado que a sociedade espera das CPIs.
A postura de seus integrantes deve ser isenta. Não queremos que o processo de depuração das nossas estruturas públicas seja usado como trampolim para advogados e políticos. Esperamos que essa tarefa seja cumprida com humildade e responsabilidade e sem retórica ou banalizações.
CLÁUDIO SLAVIERO é empresário e vice-presidente da Associação Comercial do Paraná.





