Com o avanço das telecomunicações o mundo está ficando mais eficiente, as nações cada vez mais próximas, e por conta desta globalização os de fora vão comprando nossas coisas. Compraram o Bamerindus, vão comprar nossas reservas minerais, a seguir a floresta amazônica, na continuidade o Estado de Santa Catarina, depois a Avenida Paulista e o grande ABC, os 6 mil quilômetros de nossas praias, incluindo a parte valiosa que elas contêm e que são nossas bronzeadas mulheres, comprarão nossos 150 milhões de bois (nos deixando como legado os sem-terra e os sem-teto), comprarão a Rede Globo e suas novelas das 8, comprarão o Corinthians e o que resta de nossos bons jogadores, a Xuxa e a Luiza Brunet, o Zeca Pagodinho e o sambódromo, o jogo-do-bicho, a fórmula da nossa caipirinha, da nossa feijoada dos sábados e do nosso churrasco dos domingos, por extensão nossas sandálias Rider e nossas bermudas.
Em troca continuaremos comprando deles hot-dog, macdonald, coca-cola, roupas usadas para os brechós, filmes pornográficos, medicamentos experimentais, venenos agrícolas, máfia japonesa, pneus meia-vida, modelos de igrejas eletrônicas de comprovado sucesso de marketing e renda (templo é dinheiro!), bonés e camisetas do Mickey, do hard rock, do Planet Hollywood, de heróis e super-heróis alienígenas (nenhuma do Pelé), armas de todos os calibres para municiar marginais e policiais truculentos. Sobretudo muita violência cinematográfica. Nem um Manhattan Chase Bank, uma IBM, uma Nippon Steel ou uma fábrica de queijos francesa, falida que seja.
Venda do Bamerindus. Para um poderoso grupo multinacional. É disto que queremos falar. Esta venda é boa para o Paraná? É ruim!
Bancos, em verdade, melhor se não existissem. Mas se existem, muito melhor que sejam nossos. Se do Paraná, como era o Bamerindus, tanto melhor.
Agora, se queremos um empréstimo, temos que falar não no bom paranês de ‘‘r’’ tomazino, mas no inglês de Michael Geoghegan. Isto é snob, tem aplomb londrino e aquela fleugma britânica. Com sotaque mandarim, como convém dentro de um HSBC.
Nada contra. Mas não dá para não ficar triste - e esta é razão destes escritos - ante a mórbida e inexplicada euforia de certas pessoas com a derrocada dos outros. Ninguém compraria o Bamerindus se ele não fosse grande. E quem o fez grande foi a família Andrade Vieira, gente aqui de Tomazina. Onde o patriarca Avelino Andrade Vieira começou com seu Banco Popular e Agrícola do Norte do Paraná e que se expandiria até chegar ao conglomerado Bamerindus. Hoje com 1.208 agências em todo o Brasil e 23 mil empregados. Na extensão, quase 100 mil dependentes diretos e indiretos. Não dá para não exaltar uma família que manteve (e na continuidade manterá) tanta gente garantida pela certeza de um salário, num país de desemprego e sub-emprego.
Não era só José Eduardo Andrade Vieira (senador, ex-ministro), era João Antonio Vieira Fº, era Maria Cristina Andrade Vieira, foram o ‘‘velho’’ Avelino e os falecidos Tomaz Edson e Cláudio.
Ao longo de sua existência o próprio Bamerindus absorveu quase uma centena de pequenos bancos (sim, quase uma centena), expandindo-se e preservando empregos.
Não foram negócios excusos que levaram o Bamerindus a uma delicada situação financeira. A intervenção nos bancos Nacional e Econômico alimentaram rumores de que também o Bamerindus enfrentava dificuldades. Como consequência, não tardaria uma onda de saques. Alguns grandes clientes se afastaram. O Banco também enfrentou problemas de devedores inadimplentes, uma herança que agora o HSBC tem que administrar. E os pesados investimentos (e seus custos financeiros) na gigantesca indústria papeleira de Arapoti (a Inpacel) e nas extensas áreas de florestamento (fonte da matéria prima). A fábrica e as áreas florestadas não vão embora, mesmo que sejam vendidas (e com certeza serão). Estão fincadas aqui. Obra de um banco e banqueiros que pensaram primeiro no Paraná.
A contínua expansão do próprio Banco e a ousadia de implantar esse gigante complexo industrial e florestal tiveram que ter um preço. Para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Quem é empresário sabe.
Vão-se os homens, ficam as obras. Pior são aqueles que chegam e se vão e não deixam obra nenhuma. Estes não sofrem grandes dores nem vivem grandes emoções, antes uma vida morna e confortável, imunes a dores de cabeça e aos tufões da inveja alheia. Deles ninguém fala e nem se importa. São pessoas que não levam grandes tombos porque não dão grandes saltos.
Vamos louvar a chegada do HSBC Bamerindus, mas sem esquecer do PR Bamerindus, aquele puro de origem. Que passa para outras mãos com um patrimônio - repita-se - de 1.208 agências e empresas congêneres diversas, com modernas sedes (próprias e alugadas), 23 mil empregados (para Vicentinho nenhum botar defeito) e uma indústria papeleira implantada em nossas terras. Isto não se constrói a um passe de mágica. Quem é empresário sabe!
Os Andrade Vieira saem do Bamerindus mas não saem da história do Paraná.

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