Bambu merece um olhar diferente
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de novembro de 2013
Parreiras Rodrigues 
Os orientais cercam suas propriedades com bambuzais: afastam os espíritos do mal. Somente essa serventia seria suficiente para induzir nossos agricultores para o plantio da gramínea, isso por causa da nossa crença em superstições.
E, numa roda de amigos, se numa conversa qualquer a palavra bambu for lembrada, fatalmente a discussão ruma para a pescaria. E o bambu vê limitadas as suas mais de mil aplicações, a um único proveito: o da vara de pesca.
Li a segunda edição de "Bambu técnicas para o cultivo e suas aplicações", de Vera Lúcia Graça, feita em 1988. Li também "Bambu - de corpo e alma", de Marco Pereira e Antonio Beraldo, de 2008.
Na introdução do primeiro, Vera Lúcia botou lá: "Pau para toda a obra", "planta de mil utilidades", ou "madeira do futuro", são algumas denominações do bambu, por ser uma das mais valiosas plantas para o homem. O campo do bambu é vasto: pode ser consumido como saborosa iguaria, transformado em instrumento musical, móveis e em matéria-prima para papel e celulose, álcool, amido, etc. O emprego do bambu na construção civil remonta há muitas décadas. A maior demonstração disso é o templo indiano Taj Mahal, cuja estrutura é toda montada com esse material e revestida com argamassa especial.
Nos primórdios da utilização do bambu, destacam-se também o primeiro filamento da lâmpada elétrica e o primeiro aeroplano com material extraído dessa planta. Atualmente, o bambu tem aplicação até no campo da tecnologia aeroespacial, sendo utilizado pela Nasa como isolante de naves espaciais. O projeto utiliza o bambu como encanamento e, por meio de um sistema simples de perfurações em toda a sua extensão, promove a irrigação de terrenos, e segue desfilando os múltiplos usos do bambu, "a madeira do futuro".
Já o prefácio do segundo livro é uma significativa apologia à importância do bambu. Enumera o quanto ele pode se fazer presente na vida de cada um de nós.
Em meio às esmaecidas folhas, encontro xerox de artigo do professor Eloy Casagrande, da Universidade Federal do Paraná. Em "Desenvolvimento do bambu" escrito em 15 de agosto de 2004, o pesquisador enfatiza que a versatilidade, flexibilidade, resistência e durabilidade do bambu o transforma numa alternativa sustentável para substituir vários produtos sintéticos usados pela sociedade que, além de agredirem o meio ambiente, são antieconômicos devido ao alto consumo energético na sua fabricação. E manda ver: "O bambu cresce 30% mais rápido do que as espécies de árvores consideradas como de rápido desenvolvimento e, graças a isso, seu rendimento em peso por hectare ao ano é 25 vezes maior que o da madeira. Devido à grande resistência do bambu, pesquisas científicas comprovam que ele pode substituir o aço em vigas, colunas de concreto e placas de fibrocimento substituindo o amianto, material cancerígeno e com os seus dias contados no Brasil. Mais adiante, Casagrande aventa que num terreno de 20 por 20 metros, ele fornece matéria-prima para construir duas casas de 64 metros quadrados em um período de cinco anos. O artigo do professor Eloy Casagrande foi escrito a quatro mãos, isto é, em parceria com a arquiteta Helena A. Umezawa, mestra em Tecnologia e professora do departamento de Construção Civil do antigo Cefet/PR. Casagrande sugere ainda o site www.bamcrus.com.br para se conhecer o trabalho do mestre em bambu, Lúcio Ventania que, por meio da ONG Bambuzeria Cruzeiro do Sul, gera renda para as comunidades e dá oportunidade para grupos marginalizados como menores infratores e deficientes físicos. E cita também uma empresa de Francisco Beltrão que fabrica móveis de bambu de excelente qualidade e acabamento competindo com os importados da Indonésia e da Tailândia.
Passou da hora de dirigirmos ao bambu um olhar diferente. Ele é muito mais que uma simples vara de pescar. Ele é a pescaria.


