Balde de gelo na macaquice
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de outubro de 2014
Débora Fajardo 
Há algum tempo era comum ouvir que "brasileiros são macacos de norte-americanos", pelo fato de se copiar aqui os modismos vindos da terra de Tio Sam. Os ianques dominaram culturalmente o mundo ocidental na segunda metade do século 20. Representavam o antídoto contra a ameaça vermelha do socialismo e sua megaindústria cinematográfica consolidou esse perfil.
Apesar de ser considerada ainda a maior potência do mundo, os Estados Unidos não dominam mais sozinhos o cenário internacional. Japoneses e chineses avançaram na eletrônica, na informática, na produção de carros. Países emergentes deram saltos na economia.
A campanha do "balde de gelo" ganhou pronta adesão de gente famosa no Brasil. Iniciada nos Estados Unidos, busca recursos para as pesquisas sobre a esclerose lateral amiotrófica. Merece apoio, como toda causa em prol da saúde. Mas fica uma indagação incômoda sobre os problemas locais ignorados, inclusive pelas autoridades de saúde.
O protocolo 307/2009 do SUS alerta sobre uma doença que afeta milhões de pessoas, e a maioria dos afetados nem imagina que ela existe. Caracterizada como uma intolerância alimentar, a doença celíaca provoca inúmeros distúrbios no organismo, podendo levar à morte, se a pessoa continuar a ingerir os alimentos proibidos. Provocada pelo glúten, é hereditária, manifesta-se em qualquer idade, com e sem sintomas - o que dificulta o seu diagnóstico.
A intolerância ao glúten tem correlação com várias enfermidades decorrentes, e nesse grupo estão também doenças malignas, como o adenocarcinoma de intestino delgado, linfoma e carcinoma de esôfago e faringe. O protocolo adverte que ela "é mais frequente do que antes se pensava, e continua sendo subestimada". Não se vê uma campanha que reivindique essa causa.
A questão do glúten esbarra em um item fundamental da economia brasileira: o trigo - mola-mestra dos nossos hábitos e da indústria alimentícia. Não deveria ser, já que não faz parte de nossas plantas nativas; metade do que se consome aqui é importado. Temos com fartura o milho, a mandioca, o inhame, comida dos índios e também dos nossos vizinhos sul-americanos.
A doença celíaca não tem grande apelo por não ser tratada com remédios. A única prescrição é retirar o glúten da alimentação. Se impulsionasse a venda de medicamentos, como o câncer e a diabete, certamente veríamos muitas campanhas por ano.
A historiadora Mary del Priore lamenta o que chama de "cidadania partida", uma referência a atitudes conservadoras dos brasileiros, em diversos contextos, contrapondo-se à posição de sétima economia mundial. Para ela, isso impede o nosso avanço. O assanhamento que as novidades de fora ainda provocam entre nós revela uma forte mentalidade de colonizados. Os norte-americanos são bons marqueteiros e sabem vender suas causas. Mas passa da hora de deixarmos a macaquice e assumirmos nossas próprias demandas.
DÉBORA FAJARDO
é jornalista e mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)
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