Balança em desequilíbrio

As preocupações sobre o desempenho da balança comercial brasileira têm uma sólida razão: o real se sustenta em reservas cambiais que, no lançamento da nova moeda, eram substanciais, mas um longo período de déficits comerciais - como o que se observa desde então - pode reduzir as reservas a níveis perigosos. Neste caso, a estabilidade da moeda correria risco. Naturalmente, as autoridades monetárias têm meios para manobrar nessas circunstâncias. Mas a intranquilidade é inevitável e suas consequências são sempre negativas, pelo menos enquanto se espera que as medidas surtam efeito - e muitas vezes eles demoram bastante para acontecer.
O Informe Conjuntural de outubro da Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera que o mau desempenho da balança comercial brasileira a partir do segundo trimestre de 1995 é reflexo de uma postura de governo que perdurou até bem pouco tempo atrás, caracterizada pela falta de iniciativa para deslanchar as reformas estruturais. De fato, o governo perdeu tempo com coisas como a quebra do monopólio da Petrobrás - que até hoje não teve nenhuma consequência visível - redefinição de empresa nacional, abertura das telecomunicações etc, relegando a plano secundário o principal: reforma do Estado, reforma da Previdência e reforma tributária. Segundo o documento da CNI, ‘‘a verdadeira origem do problema atual é a lentidão que se tem imprimido às reformas estruturais’’.
Infelizmente, apesar de todos os sinais que vêm sendo dados pela economia ao longo deste período, grande parte dos integrantes do Congresso Nacional não parece se sensibilizar, postergando indefinidamente as soluções que o País reclama. Para piorar, o próprio Executivo acabou complicando ainda mais as coisas, recentemente, ao estimular a proposta de reeleição para presidente da República, idéia que começa a ocupar as atenções do Congresso em detrimento de tudo o mais.
Com isto, as reformas estruturais foram inevitavelmente remetidas para o próximo ano, na melhor das hipóteses. Não há como esperar definições no curto período que resta deste ano. E nem existem certezas sobre o que acontecerá depois, uma vez que agora tudo passa a depender da emenda da reeleição. Alguns ministros adiantam que se a reeleição for aprovada, o presidente Fernando Henrique Cardoso terá mais força para implementar as reformas. Entretanto, o atual presidente tinha muito poder ao ser eleito com a maioria absoluta dos votos em primeiro turno. Como mentor do projeto de estabilização, o presidente tinha plenas condições para conseguir do Congresso as medidas que o plano reclamava. É difícil crer que terá melhores condições pelo simples fato de poder vir a se reeleger.
O que preocupa é que as grandes causas da inflação persistem. O déficit público aumentou, a dívida interna continua sendo ‘rolada’ em prazo muito curto, o chamado ‘custo Brasil’ ainda é exageradamente alto. As vitórias obtidas até agora são parciais e, por faltar o essencial, podem ser passageiras. O risco de acomodação, por parte das autoridades, é muito grande. Se não houver um despertar para os perigos que cercam a economia no futuro próximo, os bons resultados obtidos até agora na luta contra a inflação podem ser todos perdidos.
Trata-se de uma possibilidade que não é aceita hoje pela maioria da população. Os brasileiros já sentiram que, se tiverem emprego e renda, viver sem inflação será muito melhor do que no passado hiperinflacionário, quando o emprego e o salário não davam para nada. O último, aliás, mal dava para passar a segunda semana do mês. O povo não quer mais aqueles tempos e não perdoará quem deixar que eles voltem.

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