Baixinhos e tiazinhas - TT Catalão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de março de 1999
TT Catalão 
Mesmo sem um estudo científico de comportamento, é fácil perceber que os antigos baixinhos erotizados pela Xuxa hoje são os sobrinhos da Tiazinha. É o desdobramento natural de uma geração tão cedo iniciada na sensualidade da telinha.
A cadeia de consumo usa e abusa da repetição exaustiva do padrão, mas a sobrevivência do produto necessita de constantes ajustes, novos, para manter a rede. Qual tipo de fetiche mass-media terão tais adolescentes quando adultos?
A modelação das gerações pela influência da mídia já foi tema de campanha publicitária em Londres, nos anos 60, alertando que as crianças tendem a reproduzir os exemplos dos pais. A campanha centrava-se mais sobre álcool e fumo e mostrava crianças, travestidas de adultos, como miniclones dos pais. O título: Cuidado! Elas repetem o que vocês demonstram.
Os meios de comunicação brasileiros crescem na consciência da postura ética, adotando códigos e avançando no debate interno sobre seus controles. Recentemente o secretário especial dos Direitos Humanos, José Gregori, realizou uma cruzada para aprofundar o tema e estabelecer pontos naturais de auto-regulamentação. Mas a tentação comercial e a pressão para manter máquinas superaquecidas pela audiência são brutais.
Dois episódios revelam o quanto essa interferência na realidade pode ser muito mais direta e menos sintomática como a dos baixinhos-paquitas que viraram sobrinhos-chicotinhos. Um, o caso mórbido do sequestro do compositor Wellington Camargo. Outro, a fuga da dona Catarina, mãe do cantor Salgadinho.
Os dois envolveram a mídia em pontos opostos. No primeiro a frontal troca de acusações entre o secretário de Segurança de Goiás, Demóstenes Torres, e o apresentador Ratinho: o resgate talvez tenha sido prejudicado pela campanha do programa que decidiu arrecadar mais dinheiro para os sequestradores. A estratégica boa-fé resultou em manipular a dor como espetáculo. Pela mutilação do rapaz, a situação se agrava, pois a polícia alerta que o crime adquiriu novos contornos, além, do sequestro. A situação agora é muito mais tensa, pois os bandidos estão mais encurralados. Tudo pela ditadura da audiência.
Já a fuga da dona Catarina foi bucólica pelo final feliz e revela o poder de uma audiência capaz de desviar a vigilância dos criminosos e provocar um novo fato no momento em que divulgava o próprio fato. Nem Umberto Eco, ensaísta italiano e teórico da comunicação, em sua narrativa de Obra Aberta ousaria tal enredo. Imaginem quando dona Catarina bateu na casa ao lado do cativeiro pedindo socorro e a família acabara de ver o caso dela na TV.
A ficção perde seu contorno verossímil no país em que até o absurdo se banaliza. Cada dia, mais deve ser instalada a discussão de uso e serviço público sobre tão poderosas ferramentas. Quanto à comunicação (agências e veículos), convém lembrar que os códigos são muitos, mas a ética permanece única, exata, básica, inquestionável: quando a pessoa não é respeitada, não há respeito na sociedade.


