Baixaria política, democracia pueril - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de outubro de 1998
Joel Samways Neto 
Final de mais uma campanha eleitoral na história da democracia brasileira. Contabilizados o pró e o contra, o trabalho dos partidos políticos em prol da politização do eleitorado - via mídia - não foi bom, na média.
O problema foi, principalmente, a relativização tempo-espaço perante o contingente de candidatos. Se se puser num mesmo balaio candidatos do pleito proporcional e majoritário, o tempo para cada um passa a ser medido em segundos. Com muita negociação (seja lá o que isso queira dizer, na cultura interna dos partidos), em minutos. Agora, veja se é possível um candidato à presidência da República dispor de, por exemplo, quinze minutos diários divididos em três blocos de cinco minutos cada - para levar sua mensagem de aspirante ao mais alto cargo do Poder Executivo nacional? Por isso que, nos casos mais grotescos, o candidato só pôde dar um pio. Uma piada. Daí o infeliz aparece na telinha e mal consegue gritar o próprio nome mais uma ou duas frases de efeito. E o pior é que esse tipo de escárnio ao sistema jurídico-político ainda é levado a sério por algumas pessoas.
Sim, a maior culpa é do sistema. O sistema permite, por exemplo, que uma candidata a presidenta use seu último espaço no horário eleitoral gratuito, dirigido ao País inteiro, para atacar, levianamente, um candidato ao governo de São Paulo! Permite que qualquer candidato use da televisão para jogar titica no ventilador do adversário. Qual a serventia desse procedimento?
No Paraná, para lavar roupa suja em casa, aconteceu de tudo. Teve candidato a deputado estadual que, a despeito de ter mais tempo do que a média dos seus concorrentes, limitou-se a mostrar o perfil fotogênico, o ar de bom moço e a mnemônica do seu número - tudo feito com técnica sofisticada de cinema e marketing. Outros apelaram para a palhaçada, como aquele do espanador, utilizando à moda da vassoura janista.
Claro que, em relação ao período da ditadura, melhorou muito. Nos anos de chumbo, as eleições - quando havia eleições - tinham esse recurso de mídia reduzido a um álbum de fotografias e um narrador, ao fundo, dizendo duas ou três coisicas do currículo do candidato. Melhorou, porém o processo continua mostrando um resultado muito aquém do que se pode considerar minimamente satisfatório e esclarecedor.
Note-se a campanha estadual na eleição para governador do Estado. O resumo ficou o seguinte: elogio em boca versus agressão rasteira. Lerner gastou a maior parte do tempo mostrando os êxitos do seu governo. Requião gastou cerca de 80% do seu tempo para explorar os equívocos e as omissões de Lerner. Golpe baixo tomar a parte pelo todo, entrevistar um grupo de supostos injustiçados pelo governo, na tentativa de provar que o governo é totalmente injusto. Golpe baixo o episódio dos professores, que, a pretexto de se reunirem com o secretário de Educação, tentaram invadir a Secretaria da Fazenda, forçando uma situação de confronto com a polícia. O conflito gerou imagens que foram usadas no horário eleitoral, com a legenda Povo contra povo. Uma armação escancarada! Semelhante à armação do Ferreirinha, no pleito de 1990. (O caso Ferreirinha foi um filme que o partido de Requião mostrou no horário eleitoral, sobre o depoimento de um tal de João Has Ferreira, suposto matador de gente, jagunço da família do candidato adversário. Descobriu-se que o tal jagunço era uma farsa. Tratava-se, na verdade, de Afrânio Luiz Bandeira da Costa, motorista de ônibus - que, aliás, nunca mais foi visto. O João Ferreira morrera em 1979. Resultado: todos os peemedebistas envolvidos na fraude foram processados judicialmente. Requião foi cassado, embora tenha conseguido, por força de liminar, manter-se no governo. Essa munição não foi usada pela coligação que apoiou a candidatura de Jaime Lerner).
Proposta crível, factível, realmente fundamentada, houve pouca.
Em nível federal, ficaram terríveis exemplos de baixeza, como a do candidato Enéas, do Prona, gritando que - conforme uma revista (que só ele leu) - Lula fizera acordos internacionais escusos, comprometendo-se a liberar o uso das drogas, e que Fernando Henrique tinha feito acordos com o megainvestidor George Soros, um narcotraficante (!).
De que adianta ao eleitor ver e ouvir bravatas desse tipo? São afirmações unilaterais, maledicências, improvadas ou improváveis, que não servem para nada. Ou melhor, para quase nada. Servem para mostrar como está imperfeita, imatura, a nossa democracia.


