Baixa dos juros: você ainda acredita?
Paulo Afonso Rodrigues
Desde setembro do ano passado, o Banco Central vem reduzindo o volume obrigatório dos depósitos compulsórios. A primeira baixa foi de 20% sobre os depósitos a prazo, injetando na economia R$ 20 bilhões. A segunda foi uma redução de 75% para 55%, injetando mais R$ 8 bilhões com a liberação dos compulsórios dos depósitos à vista.
O BC não demonstrou ao mercado e, muito menos os bancos, quais eram os ativos anteriores a setembro de 1999, quais os custos, a composição global da carteira e o que representaram no custo a injeção dos compulsórios liberados. E, convenhamos: em nossos artigos mencionamos que os recursos estavam mofando nos cofres do BC a custo zero.
E o Banco Central foi liberando os compulsórios. Primeiro, os depósitos a prazo de 20% para 10% e de 10% para zero, sem um acompanhamento monitorado ou demonstrando que este acompanhamento estava sendo realizado. O mesmo procedimento aconteceu sobre os depósitos à vista de 75% para 65%, de 65% para 55% e agora de 55% para 45%.
Estas injeções de recursos no mercado devem ser amplamente demonstradas, já que são ‘‘apenas’’ R$ 32 bilhões a custo ‘‘zero’’ no cofre da União liberados para o mercado bancário aplicar cobrando juros.
Citando um simples exemplo: uma carteira com R$ 100 mil, que recebe uma injeção de R$ 32 mil, não deveria baixar os custos na mesma proporção? Qual é a carteira do sistema bancário em setembro e qual é a carteira posteriormente a setembro e os efeitos causados com as liberações?
Na última quarta-feira, o senador Moreira Mendes mencionou que os créditos pessoais aumentaram em mais de 60% a tomada de recursos. Desta forma, estamos liberando as taxas de compulsórios de maneira simplória. São recursos com taxas ‘‘zero’’, para aplicações entre 60% e 100% ao ano a título de juros.
Isto sem nos esquecermos que existem instituições financeiras cobrando taxas em cheques especiais superiores a 200% ao ano. Os especialistas certamente irão se defender, alegando que as exigibilidades do BC são compostas de crédito rural, crédito comercial e também crédito pessoal. Porém, estes custos totais, se somados dentro da sua proporcionalidade, com certeza, irão extrapolar a 50% ao ano. Convenhamos, com taxa ‘‘zero’’ de captação e 50% de aplicação, é bom negócio e tanto!
Temos hoje tecnologia de primeiro mundo para o deferimento de crédito com a ‘‘Central de Risco’’ informando quem são os devedores do sistema bancário com valor superior a R$ 20 mil, além das garantias de praxe.
O sistema bancário também dispõe de ótimos profissionais em todas as áreas, que analisam balanços, possibilidades de riscos, entre outros, bem como, demonstram claramente quais são os benefícios que o cliente tem com a tomada do recurso e negociam abertamente novas rentabilidades indiretas com a venda de produtos ao cliente varejista nos bancos.
Os recursos foram liberados. Seriam estas liberações uma exigência do mercado dos banqueiros ‘‘novos’’ em nosso País? Ou uma carta de apresentação demonstrando custos para as próximas privatizações?
Apresentar um sistema bancário em crescimento com compulsório de 20% nos depósitos a prazo e 75% nos depósitos à vista é uma posição. Apresentar com ‘‘zero’’ de compulsório nos depósitos a prazo e 45% nos depósitos à vista, a posição é outra.
O mercado já foi alertado ontem que, com esta liberação de 55% para 45%, os bancos serão beneficiados entre 25 de junho a 7 de julho deste ano mas que o reflexo nas taxas de juros só serão sentidas daqui a 90 dias! Por que esta afirmação se o compulsório não será recolhido?
Além de todos os programas de reestruturação já impetrados no sistema de setembro do ano passado a junho deste ano, o Banco Central injetou R$ 32 bilhões no mercado. Os custos das taxas anteriores a setembro e os custos cobrados até junho devem ser demonstrados para justificar a liberação dos compulsórios já que estes custam – e muito – para a Nação.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina

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