Baixa dos juros: quem acredita? - Paulo Afonso Rodrigues
Baixa dos
juros: quem
acredita?
Paulo Afonso Rodrigues
Nos últimos 30 dias, o mercado viveu momentos de expectativas para a baixa dos juros. Primeiro o governo baixou o compulsório das aplicações, injetando no mercado mais de R$ 10 bilhões, valor suficiente para o custeio da safra de verão no Brasil. Depois, baixou o compulsório dos depósitos à vista, que são realizados todos os dias em contas correntes, em R$ 10 bilhões.
No entanto, o mercado pouco sentiu a diminuição nas taxas de juros. Os mais penalizados foram os investidores que, da noite para o dia, passaram a ouvir das agências bancárias que o excesso de recursos para aplicação diminuiu o interesse da captação.
Agora, o governo sinaliza para nova redução de compulsório, beneficiando os bancos com cobranças diferenciadas em relação a tributos federais. De outro lado, os bancos já anunciaram que a redução da taxa de juros será gradativa, tendo em vista a inadimplência de 9% do setor.
Ora, se de um lado estão os 9% de inadimplência e taxas de juros de 3% a 9% ao mês, de outro estão o Serasa, o Cadin, a Central de Riscos, a baixa de compulsórios e a baixa na rentabilidade nas captações. A matemática não mente.
Vamos exemplificar com um valor de R$ 100,00. Os bancos captam o dinheiro pagando juros de 1 a 1,2% ao mês com compulsório, estes juros se elevam para 1,3% a 1,5% ao mês. Se for depósito à vista, o banco terá apenas custos operacionais.
Quando a pessoa jurídica empresta este recurso, paga de 3% a 3,8% ao mês, o que dá um custo médio de 3,4% ao mês. Considerando que a média de recursos emprestados pelas pessoas jurídicas no País é de 30%, teremos o equivalente a R$ 30,00. Na pessoa física, o custo do empréstimo é de 5,5% a 6,5% ao mês, o que significa um custo médio de 6% ao mês. Considerando a mesma média de recursos emprestados de 30%, teremos os mesmos R$ 30,00.
Os juros cobrados de cheques especiais e contas garantidas variam de 7,5% a 9,5% ao mês, o que reflete um custo médio de 8,5% ao mês. A média de recursos tomados nesta modalidade de empréstimo é de 40%, o que significa, no nosso exemplo, um valor de R$ 40,00.
Desta forma teremos os seguintes resultados: R$ 40,00 multiplicados por 8,5% são equivalentes a R$ 3,10; R$ 30,00 multiplicados por 6% são equivalentes a R$ 1,80; e R$ 30,00 multiplicados por 3,5% são equivalentes a R$ 1,05. Portanto, a soma equivale a uma rentabilidade de R$ 6,25, o mesmo que dizer 6,25% ao mês. No ano, esta taxa de juros passa a ser de 107%.
A captação sem considerar os depósitos à vista representa pagamento de juros de 1,5% ao mês, o que, somando-se o compulsório, passa a ser de 19,56% ao ano. É só comparar: de um lado estão os 107% de cobrança de juros e de outro os 19,56% de pagamento de juros referentes ao custo de captação de recursos.
Neste contexto, pergunto: o que representam os 9% de inadimplência que estão sendo apresentados pelos bancos como justificativa para que os juros caiam apenas gradativamente? E complemento: as taxas de juros aplicadas pelo seu banco são iguais a do exemplo anterior ou são maiores?
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina





