A novela ''Duas Caras'', que ocupa o horário nobre da Rede Globo, teve a pior audiência na semana de estréia dos últimos dez anos na emissora. Será que o público se cansou das novelas? Na opinião do doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana Mauro Alencar, a baixa audiência não é sinônimo de desinteresse, mas sim da ''vida acelerada'' e da competição com outras mídias. Alencar fala ainda sobre a polêmica da classificação por faixa etária e os novos rumos dos folhetins produzidos no País.

A queda na audiência em algumas novelas é sinal de que as fórmulas estão desgastadas?
De jeito nenhum. É uma questão cíclica de qualquer produto que tem uma longevidade tão grande como a telenovela. Quedas e picos de audiência são normais. Acontece que, na atualidade, você tem muito mais opções de entretenimento do que nos anos 70, 80. A vida ficou muito acelerada.

A internet está roubando espaço da TV?
Tudo compete. ''Desejo Proibido'', a novela das 18h da Globo, é excepcional, mas não registra grande audiência. Quem consegue chegar em casa às seis horas da tarde? Nos anos 70, todos já estavam em casa neste horário. Hoje não se chega nem às 20h.

Mas antigamente existiam novelas que maracavam época, como ''Roque Santeiro'', ''Selva de Pedra''. Hoje as pessoas têm dificuldade de lembrar o nome dos personagens da novela anterior...
Discordo disso. As pessoas guardam os personagens ainda. Exemplo disso é ''Paraíso Tropical'', uma produção recém-terminada que marcou as personagens gêmeas Paula e Thaís, vividas pela Alessandra Negrini.

A violência, como cenário mais próximo à realidade do País, está ganhando espaço frente às histórias românticas das novelas?
Varia muito, mas existe uma tendência de aproximação da realidade. As novelas, sobretudo as das 21h, ganharam um tom mais agressivo. A realidade sempre foi matéria-prima da tv. Se esta sociedade está mais violenta, isso acaba indo parar na ficção.

O inverso também acontece? Até que ponto as novelas influenciam a sociedade?
Influenciam bastante. Em 2003, o Estatuto do Idoso só foi aprovado em função da pressão criada através da novela ''Mulheres Apaixonadas'', que tinha um casal de idosos maltratado pela neta. Em 1975, já existia separação entre casais. Mas o que fez com que o assunto fosse realmente discutido foi a novela ''Escalada'', que mostrou um casal em conflito que acaba se separando.

Tem exemplos negativos desta influência também?
Eu não vejo. Todo novelista sempre tenta levar uma mensagem positiva.

Classificação etária é positiva ou pode ser encarada como censura?
É um assunto muito capcioso. Pode sim resvalar em censura. As emissoras têm de ficar atentas ao que elas exibem dentro do horário. Por outro lado, você não pode cercear a liberdade do autor com certos temas, dizendo que isso pode ou não pode. Até porque o telespectador também tem suas responsabilidades, é um conjunto. A novela é como uma grande tribuna social, o melhor exemplo do retrato de um povo. Uma forma de inserir a discussão de assuntos polêmicos nas casas.

Pode haver uma mudança no formato atual?
Prevejo uma redução eventual no número de capítulos, investimento maior em co-produções. A Bandeirantes e a rede japonesa NHK estão mostrando a série ''Haru e Natsu: As cartas que não chegaram'', um trabalho excelente. A co-produção é o grande futuro da telenovela em todo mundo.

Novelas não serão mais tão extensas?
Já tivemos uma fase de novelas com mais de 300 capítulos, como ''Irmãos Coragem'', outra fase com 160 capítulos, como o ''Bem Amado''. A média atual é de 200 capítulos. Não tem como prever isso, porque vários fatores que podem alterar a estrutura da novela.

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