Baile na ilha fiscal - Rogério Lima
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terça-feira, 27 de abril de 1999
Rogério Lima 
Até o último domingo, 25 de abril, os mentores da política econômica nacional disputavam a tapas os holofotes da mídia na tentativa de associarem suas performances àquilo que intitulavam, com todas as letras, o fim da crise econômica. Afirmava-se isto com indisfarçável ar de conquista, pois depoimentos de megaespeculadores internacionais davam conta que o Brasil voltava a ter credibilidade, consequentemente reabrindo seu cassino para as grandes apostas. Enfim, uma farra sem tamanho, onde, segundo nossas autoridades econômicas, todos saem ganhando. Todos quem? Num breve parêntese, comparo o fato com um triste exemplo da história brasileira: pareciam os alucinados áulicos da corte a disputar os convites para o Baile da Ilha Fiscal, no Rio, dias antes da definitiva queda da monarquia.
Segunda-feira, 26 de abril, os jornais estampam a preocupação do Banco Mundial com relação a previsão de queda de 3% no PIB nacional, o que, por si, traduz-se na previsão de que mais 3 milhões de brasileiros ingressarão na triste condição de miseráveis, mergulhando abaixo da linha de pobreza.
O contraste revela, de forma clara e contundente, que os homens que cuidam da economia nacional servem a um único senhor, onipotente: o mercado internacional. Mercado este que se compõe de interesses de grande grupos econômicos, poderosos bancos e megainvestidores, mais para agiotas, que buscam apenas e tão-somente o lucro fácil, mesmo que este venha à custa do empobrecimento de milhões, como é denunciado até mesmo pelo Banco Mundial no caso do Brasil.
Voltando ao baile da Ilha Fiscal, onde foram consumidos centenas de litros de cerveja, caixas e caixas de uísque e vinho e toneladas dos mais variados tipos de carnes, ao passo em que a corte mostrava seu estilo todo próprio, nas ruas, a população manifestava seu descontentamento, sentimento este absorvido por alguns militares de alta patente, embora até questionáveis suas reais intenções, mas que acabou por ser decisivo para decretar o fim da monarquia e a implantação do regime republicano.
A história faz-se aos ciclos, como quase tudo neste mundo. Porém, para alguns, como as nossas altas autoridades econômicas, é tardio perceber e, quanto mais, sentir as reais carências do povo. Isolados em seu mundo fantasioso, paparicados pelos representantes do capital internacional que domina os governos servis, permanentemente tratados de forma positiva por uma imprensa também envolvida neste jogo de interesses, os economistas do governo estão deixando passar, vergonhosamente, uma oportunidade esplêndida de iniciar no País um processo de resgate da soberania e conquista da independência plena. Tudo em troca da entrada fácil do capital especulativo volátil, de uma questionável ajuda financeira do FMI, que amplia os valores da dívida externa, e de um período de recessão e não-crescimento da economia nacional.
Distonantes, as posturas do Banco Mundial, que apregoa as dificuldades futuras do Brasil, salientando que a economia deveria crescer entre 3% e 5% para que houvesse melhoria da qualidade de vida, e do FMI que, descaradamente, mente que o governo brasileiro não consegue encontrar espaços no orçamento para proteger os pobres. Certo é que a economia não vai crescer nos índices desejados pelo Banco Mundial e que o governo federal, dado às suas reais intenções neoliberais, jamais vai buscar, quando mais encontrar, espaço no orçamento para proteger os pobres, visto que a proteção aos ricos está cada vez mais garantida, este ano com dotações superiores a US$ 130 bilhões somente para o pagamento de juros às instituições financeiras e especuladores.
Enquanto na ilha fiscal de Brasília a orquestra toca e os pares apaixonados rodopiam no salão luxuoso, fazendo mesuras ao poder incomensurável do capital internacional, nas filas, vilas e favelas de todas as cidades fica cada vez mais transparente o processo de exclusão social promovido pelo governo federal.
É fácil perceber que o Império de FHC está ruindo, mas enquanto durar o baile, vossas majestades, cortesãos e áulicos estarão protegidos do clamor insuspeito das hordas de pobres e do povo embevecido do desejo de justiça social. Mas que um dia o Império cai, ele cai, repetindo o episódio que culminou na proclamação da República.
- ROGÉRIO LIMA é vice-prefeito de Palmeira


