No País do Carnaval é normal que os festejos do Momo sejam encarados como um marco para o início real do ano. É como se as férias fossem acabando aos pouquinhos e só depois da Quarta-Feira de Cinzas as máquinas atingissem a velocidade de todo o vapor. O país volta a funcionar definitivamente. A máquina administrativa, em início de mandato, começa mostrar a que veio, após a fase inicial de adaptação e conhecimento do terreno.
Um exemplo de criatividade e competência foi o nosso Carnaval de Rua, que apesar do pouco tempo disponível para operacionalização, foi um sucesso de organização e de alegria digno das grandes capitais, e a união da Secretaria de Cultura, Codel, Fundação do Esporte e da comunidade em geral mostrou que o esforço conjunto é a melhor solução e apontou um novo caminho a ser percorrido pelas escolas de samba locais até os próximos desfiles. O povo viu se divertiu e aprovou. Agora é hora de, rasgada a fantasia, começar a trabalhar.
Porém, para alguns membros ilustres da sociedade, estes até então em alta conta em razão de uma imagem de competência caridosa acima de qualquer suspeita e outros já velhos conhecidos da promotoria, o início da quaresma não se mostrou muito alvissareiro, haja vista as manchetes estampadas nos jornais nos últimos dias.
Para uns, a decisão de devolver o processo criminal que investiga os desvios na Prefeitura de Londrina para julgamento sob o crivo da sociedade local, embora com os ânimos bastante atenuados e confiantes num novo tempo na política, é uma notícia de que o rolo compressor que atuava junto a todos os níveis de poder estadual e federal, foi-se com o mandato e – felizmente para o povo – não sinaliza para voltar.
Em decorrência do ‘‘efeito Maringᒒ, é provável que os que se enfeitaram com máscaras de pedraria, encastelaram-se em propriedades não condizentes com os vencimentos, desfilaram em carros alegóricos importados e distribuem brioches a quem não tem pão, e que agora descem do trono do ‘‘foro privilegiado’’, juntem-se a uma plebe que lota as penitenciárias por ser considerada rude, embora tenha assaltado cofres muito menores que o do Tesouro Municipal.
A exposição da evolução do processo à sociedade e a permanente atuação da comunidade no sentido de exigir o retorno do produto do roubo ao seu legítimo dono que é a população londrinense será uma resposta de que o tempo não apaga tudo, e que quem bate pretende que tudo continue igual, mas quem apanha e é espoliado não esquece enquanto a justiça não for feita e os culpados punidos.
Por outro lado mas no mesmo sentido, existe o bloco que não aceita o fim do Carnaval e, como na Bahia, apenas troca a mortalha na esperança da folia continuar indefinidamente; é a festa do empurra-empurra, um baile de máscaras onde é mais interessante fazer o papel de Bobo da Corte do que de Colombina, já que a tolice pode afastar o peso da responsabilidade e, quem sabe, apagar a tinta da caneta.
Porém, bobo será o cidadão que se permitir envolver nesse engodo momesco, pois Saint-Exupéry já dizia com grande propriedade que ‘‘tu te tornas responsável por tudo aquilo que cativas’’ e quem é sábio para gerir o patrimônio pessoal e a administração familiar, que em geral é o que recomenda para a assunção de cargo público remunerado ou não, também deverá sê-lo quando aceitar a incumbência social de desempenhar o papel de gestor de recursos da população.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina
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