Baile da Saudade
O calor exagerado punha na tarde um brilho excessivo que ofuscava os olhos e amortecia a disposição. Para falar a verdade estava um clima pouco civilizado, sem as elegâncias do frio, sem o conforto climático que predispõe a um chocolate quente. De repente, de uma loja de CDs veio um som que me remeteu ao passado. Moonlight Serenade deslizava no ar sugerindo um antigo salão de baile. A música me atraiu para dentro da loja e minha memória começou a ser atividade. Logo que entrei um funcionário atencioso me perguntou: o que deseja? A estas alturas já estava tocando Yesterday. Bem, respondi mentalmente, desejo voltar aos 18 anos.
Saudosismo? Claro que sim. A orquestra de Glenn Miller era pura saudade. De quê? Talvez de um tempo mais ameno. Mais reprimido também. Cheio de proibições e advertências sobre o pecado e o diabo. Mas a juventude se basta na sua beleza intrínseca e eu e meus primos éramos felizes com nosso romantismo, nossa ingenuidade, nosso despreparo para o casamento. E aí começou a se espalhar pela loja o som de Solamente Una Vez. Dois passos para cá, dois para lá.
Serão os jovens totalmente liberados de hoje menos ou mais felizes? Parecem tão envelhecidos. Estarão mais preparados para a vida? O que fazem eles com suas emoções a partir dessa instabilidade amorosa que se presencia? De repente escuto A Time For Us. Desço ladeiras. Subo escadas. Abro portões. Entro em jardins com canteiros de rosas vermelhas. Há risos no ar. Um quê de festividade permanente. Uma expectativa alegre do que estava por vir. Retorno à magia das vivências passadas.
Serenade in Blue. Entro no grande salão de baile. Lá fora um luar de blue moon, perfume de Fleur de Rocaille no ar, vestido longo. Dançava-se, mão direita da moça na mão esquerda do rapaz. Mão esquerda dele na cintura dela, a dela no ombro dele. Alguns mais atrevidos ousavam o escandaloso rosto colado e à meia-noite em ponto, no aristocrático Automóvel Clube, a tradicional juventude mineira de Belo Horizonte, valsava. Volteavam as longas saias rodadas, lançando sob as luzes dos lustres de cristal as cintilações dos canutilhos franceses incrustados sobre rendas e organdis. Era o requinte posto de lado na sociedade massificada da atualidade. Mas talvez naquele salão de baile ainda valsem.
Começo a ouvir Flor Amorosa. Essa melodia é muito antiga. Vem de tempos mais trás. Com certeza dos bailes de minha mãe ou quem sabe de minha avó. Mas perdura a música varando o tempo, chegando até essa época onde a pressa substitui tudo rapidamente, desenraizando relacionamentos, amizades, empregos, amores. Sofre-se o caos da aceleração. O resultado é a instabilidade de valores, costumes, sentimentos.
Fascinação vem agora destilando acordes de museu: teu sorriso é luz, sedução. Onde foi parar a poesia? Anda meio esquisita essa poesia moderna, se bem que os bons poetas da atualidade continuam, como no passado, só produzindo algo que presta quando estão com a alma em frangalhos. Os demais fingem compor versos e cometem suas poesias sem ritmo e sem calor. Hoje há um faz-de-conta até na arte.
Love Me Tender. Canta Elvis Presley: oh my darling I love you. Será que a moçada desses tempos acha isso careta, ou a canção ainda mexe com suas emoções?
O prestimoso rapaz da loja torna a me perguntar: o que deseja? Por um instante desejei Copacabana princesinha do mar, Chica-Bom e Grapette. Podia-se no Rio de Janeiro caminhar tranquilamente pela calçada da praia, olhar o Posto 6 sem poluição, sentar num banco e ficar usufruindo da beleza do mar. Perfume de Gardênia. Quem recorda? Não sei por que a música me lembrou que era chique ir de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro de trem Vera Cruz, hoje chamado de Trem de Prata. Aquelas viagens da infância nunca mais se apagaram de minhas lembranças e trens continuam a me encantar. Tenho nostalgia de trens. Paisagens passando como slides. O carro restaurante. As cabines apertadas. Os beliches dos quais quase se caía quando o trem fazia uma curva acentuada, tirando os passageiros do sono profundo. Por que não existem trens em maior quantidade no Brasil? Será que os jovens de hoje já andaram de trem para sentir o verdadeiro gosto da travessia, a aventura de uma viagem? A questão é que os trens não são muito rápidos. O negócio é o avião que faz chegar depressa ou o automóvel, que de tanta pressa às vezes não consegue chegar. Estamos na era da impaciência.
Pela terceira vez o funcionário prestimoso me perguntou o que desejava. Claro que queria uma viagem de trem para voltar ao passado. Bastaria retroceder algumas estações de anos para descer na plataforma dos encontros impossíveis. Haveria, eu sei, uma bruma um pouco fria, um sol se levantando e tingindo o leste de vermelho, uma indefinível nostalgia, uma busca de não sei o quê.
Olhei para o funcionário da loja e finalmente respondi. Por favor, quero o CD que está tocando. E tocava naquele momento Io Che Non Vivo Senza Te. Ah, disse ele, é o Baile da Saudade. Está na oferta. Pode pagar no caixa.
Saí de novo para o calor da rua levando comigo o Baile da Saudade. Então, pensei: foi bom voltar no tempo, abrir o escaninho do coração onde ficam guardadas as reminiscências mais preciosas, mas a verdadeira viagem que devo fazer agora é para o futuro, para os encontros possíveis com a vida. E posso fazer isso por causa dos caminhos já percorridos onde aprendi a conhecer as estradas do destino. Além do mais, se tenho a idade psicológica de 18 a 25 anos de esplendorosa juventude, poderei viajar novamente no Trem de Prata, ao som de Begin in the beguine.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora e professora universitária.
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