Aviso aos navegantes - Rubem Azevedo Lima
Aviso aos navegantes
Rubem Azevedo Lima
Sob o governo Fernando Henrique Cardoso, cujas diretrizes políticas, para muitos economistas, são recolonizantes, o Brasil parece estar no perigoso rumo da implosão moral, social e até da secessão. Esse caminho, coincidentemente, definiu-se ao se aprovarem as reeleições, sabem todos a que preço. Depois, consolidou-se, quando o governo, para dar a seus credores a impressão de estabilidade e eficiência, não agiu, por exemplo, como a Rússia, que renegociou a dívida externa com o FMI e não vai pagá-la durante seis anos, para atender às aflições internas.
Vendemos as estatais estratégicas, acreditando que teríamos maior competição na área das empresas vendidas e, assim, serviços de melhor qualidade, a preços mais baixos. E ainda sobrariam recursos para quitar a dívida pública e aplicar nas obrigações básicas do governo: saúde, educação, trabalho e segurança.
Os resultados de tal política não corresponderam às expectativas. Os serviços pioraram e só os novos fornecedores levaram vantagem. A dívida pública subiu de US$ 68 bilhões para US$ 520 bilhões, embutindo-se, nesse oceano de endividamento, a inflação falsamente controlada, como demonstram o ex-ministro Celso Furtado e o senador Lauro Campos, ambos economistas. Vale recordar que a Iugoslávia, em 1980, fez com o FMI acordo igual ao nosso e não resistiu: foi esquartejada.
O descalabro de nossas contas macula a imagem do governo perante a História e compromete o futuro dos brasileiros, mas o Brasil prefere render-se ao FMI, ao Banco Mundial e à Reserva Federal dos Estados Unidos, aumentando suas legiões de desesperados. O governo insiste nos juros altos (19%), para atrair investidores, sempre que os EUA elevam suas taxas (6%) e induzem as economias dependentes a fazerem o mesmo. É o jogo do círculo vicioso: inibe-se a produção, o país não cresce, atola-se em crises e os especuladores internacionais têm altos lucros, às custas do empobrecimento nacional. E Roma, ó: Delenda Carthago!
Que fazer contra o desemprego? Dizer aos brasileiros que se reciclem profissionalmente (o que exige gastos pessoais), para terem chance de conseguir trabalho? Estranha proposta. O desempregado não tem como bancá-la e sabe que o desemprego não poupa nem os portadores de diplomas universitários!
Esse quadro infernal propaga a violência. Fazem-se conluios entre bandidos e autoridades. Sucedem-se os assaltos aos cofres públicos e a cidadãos indefesos, em suas casas ou nas ruas. Os brasileiros se agridem, regionalmente. Uma tevê de São Paulo fala das relações promíscuas de policiais com narcotraficantes, no Rio, e diz que, nesse Estado, se alguém gritar pega ladrão, todo mundo corre. Certa revista acha que o Centro-Sul e o Sudeste seriam ricos, sem os nordestinos e nortistas. O craque do futebol chama os adversários de paraíbas. Os habitantes de Brasília são parasitas da nação. O baiano é preguiçoso. O paulistério é uma praga destrutiva.
A má-fé, o preconceito, a demagogia, a cegueira, a ignorância, a incompetência e a burrice desagregam e açulam o separatismo. Sem saídas, os brasileiros iludem-se a si mesmos, como se o seu problema fosse dos outros e não de todos. Mas, aviso aos navegantes: desiludidos, embora frágeis, eles podem, como ocorre às vezes, liberar o potencial de vulcões que têm, juntos, e jogar para o alto quantos sobre eles navegam sua insensibilidade e/ou irresponsabilidade.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





