AVENTURA NO MAR - ''Já dei três voltas ao mundo''
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Londrinense, 42 anos e com muita história para contar. Este é o perfil do velejador Yuri Sanada, que já passou por mais de 50 países do mundo e morou a bordo de um veleiro por 12 anos com a mulher, a publicitária Vera Sanada. Com ela, abriu uma escola de mergulho para estrangeiros no Japão, fundou a primeira revista eletrônica de aventura, escreveu seis livros e produziu o Festival de Cinema Brasileiro no Japão (Nipo Cine Brasil), que já está na quarta edição. Além disso, construiu, com pneus velhos, a primeira casa orgânica do Brasil, nas proximidades de Bragança Paulista.
Atualmente está envolvido em um projeto que, segundo ele, pode mudar os livros de história. Juntamente com uma expedição, navega em torno da África em um veleiro Fenício de 600 A.C. ''Ressucitamos um barco e estamos navegando com ele. ô algo que ninguém nunca fez'', diz o velejador, que junto com a esposa ministra palestra hoje em Londrina.
Na cidade para visitar familiares, Sanada aproveitou a oportunidade para, em entrevista à FOLHA DE LONDRINA, falar de suas experiências mais marcantes e explicar por que questões relacionadas à sustentabilidade estão presentes no trabalho do casal.
Quando você começou suas viagens? O que te motivou?
Eu acho que você já nasce com esse tipo de predisposição. É algo que vem com a pessoa. Desde que eu me conheço por gente eu sempre estou em movimento, sempre viajei. Geralmente temos um monte de sonhos quando somos jovens. Mas não parei de sonhar, nunca tive um basta. Quando tinha 16 anos, fiz um curso de paraquedismo. Com 17, fui para São Paulo buscar um pessoal para trazer um curso de mergulho para o Paraná e iniciei os primeiros cursos em Londrina. Nessa época, comecei a viajar para fora do Brasil com o objetivo de buscar material de mergulho. Comecei a fazer biologia na UEL e fui para a Espanha fazer um curso. Nunca mais voltei. Conheci a minha esposa na Inglaterra e começamos a viajar juntos. Já moramos em diversos países e sempre fazemos coisas que têm relação com aventura.
Por quantos países já passou?
Cinquenta países ou mais. Eu e minha esposa viajamos praticamente toda a Europa e o Egito juntos, moramos em Israel e no Japão. Quando estávamos bem instalados no Japão percebemos que não queríamos ficar parados. Em 1994 compramos um veleiro e começamos a viajar novamente. Em distância percorrida, já dei umas três voltas ao mundo.
Atualmente você está envolvido em um projeto cujo objetivo é navegar em torno da África. De onde veio essa ideia?
Em 2006 ficamos sabendo do projeto de navegar em torno da África em um veleiro oceânico antigo. É uma réplica de um barco fenício do ano 600 antes de Cristo. É o barco mais antigo do mundo, que foi reconstruído e está navegando. Nós tínhamos um projeto semelhante no ano 2000. Queríamos fazer um barco fenício e viajar do Líbano até o Brasil. Até lançamos um livro sobre isso. Mas, infelizmente, não conseguimos fazer esse barco. Teve a queda das Torres Gêmeas e o governo de Israel e do Líbano, que estavam nos apoiando, disseram que era impossível fazer um projeto conjunto entre judeus e árabes naquele momento. Paramos o projeto e em 2006 ficamos sabendo que um inglês estava fazendo o barco fenício e ia dar a volta na África. Entramos em contato com ele e hoje somos sócios nessa expedição. Estou no Brasil por coincidência. Era para eu estar a quatro graus de latitude norte.
Essa viagem começou na Síria e está dando a volta inteira na África. Desci do barco em Santa Helena, uma ilha africana onde Napoleão foi exilado, peguei uma carona e vim para o Brasil. Vou voltar para o barco assim que ele chegar ao arquipélago de Açores (Portugal).
Quais as experiências que mais te marcaram?
Há diversas experiências marcantes. Algumas alegres, outras tristes. Eu e minha esposa moramos a bordo de veleiros durante 12 anos. Em 2005 nós naufragamos na costa brasileira. Foi muito drámatico. Tivemos que enfrentar tempestades, passar para botes salva-vidas. Sabe aquelas cenas do filme Naufrágo? As ondas gigantes? Passei por tudo isso. Eu, minha esposa e um gato.
Uma vez estava navegando pela costa da Somália, fomos perseguidos e tivemos que fugir de piratas. Tem um casal inglês que foi preso e estão de reféns até hoje. Isso já faz seis meses.
Essa viagem no barco fenício em torno da África também está sendo muito marcante. É um projeto que vai mudar os livros de história. Estamos fazendo uma coisa que ninguém nunca fez. Ressucitamos um barco e estamos navegando com ele. Está passando no Fantástico o documentário que estamos produzindo a bordo.
Uma de suas grandes preocupações é com a sustentabilidade. O que te levou a pensar e a investir na questão ambiental?
Como eu morei em vários pontos do mundo e fiquei em barracas a quatro metros do Mar Vermelho, em desertos e em uma série de lugares diferentes, fui percebendo algumas coisas. O inverno no Japão, por exemplo, é muito rigoroso e se desligar o aquecedor elétrico a casa fica gelada. Comecei a pensar que devia haver um sistema mais inteligente. Os castores e os esquimós fazem suas casas e sobrevivem nelas. E como hoje com toda a modernidade as pessoas fazem casas que não se sustentam, sendo preciso ter ventilador e ar-condicionado? Em Brasília se a energia for cortada ninguém fica nos ministérios. Eu acho isso meio rídiculo. Se você projeta uma coisa moderna ela tem que ser sustentável e se manter.
Nos veleiros você tem que ter autonomia e arrumar soluções para ter água e energia elétrica. Você não agride o meio ambiente, pois utiliza o que tem de forma correta.
E de onde veio a ideia de construir uma casa ecológica com pneus velhos?
A gente nunca se preocupou com casa porque morávamos a bordo. Mas quando naufragamos em 1995 começamos a colocar em andamento esse projeto que já tínhamos em mente. Fizemos um acordo com uma indústria de pneus brasileira. Hoje a nossa casa é aprovada pela agência nacional de pneus para reciclar pneus usados. A casa, que está sendo construída em São Paulo, não está pronta. Está em andamento.
Quais os seus planos para o futuro?
Eu e minha esposa deixamos o destino nos levar. Mas queremos concluir a volta a África, temos que terminar o documentário. Lançamos o Festival Brasileiro de Filmes de Aventura e Turismo, que já vai para o sexto ano. Queremos dar continuidade a esse projeto. Vamos levar esse Festival o ano que vem para Vancouver (Canadá). Atualmente somos consultores do Programa Globo Mar, da Rede Globo.
Serviço
A palestra ''Planejamento para uma vida sustentável'' é hoje, às 15 horas, no anfiteatro do Centro de Estudo Sociais Aplicados (CESA) na UEL. A entrada é franca.
Sempre fazemos coisas que têm relação com aventura
Se você projeta uma coisa moderna, ela tem que ser sustentável


