Londrina sedia a partir de hoje, o 2º Congresso Mundial de Odontologia, que reúne até sexta-feira, cerca de 5 mil profissionais e acadêmicos de quatro áreas da saúde bucal – odontologia, prótese, fisioterapia e fonoaudiologia. Nestes quatro dias de debates que abordarão desde as necessidades básicas da saúde pública aos avanços da tecnologia de ponta, profissionais de 19 Estados brasileiros e de 11 outros países estarão discutindo um tema crucial: como levar os avanços da ciência – a cada dia mais significativos – às classes de menor poder aquisitivo. O debate está aberto, assim como a grande lacuna que separa a tecnologia avançada da grande massa da população dos países em desenvolvimento.
Dias atrás fui questionado se o Brasil é o país dos banguelas e quantos são os milhares de cidadãos sem acesso a um tratamento. Lamentavelmente, uma pesquisa do IBGE, publicada em julho do ano passado pela Associação Nacional de Odontologia revelou que 18,7% da população brasileira nunca colocou os pés em um consultório. No total, 29,6 milhões de pessoas nunca receberam atendimento. Um quadro drástico, e que pode ser ainda pior se considerarmos como desdentados os que usam prótese total, as dentaduras. Aí este número ultrapassa a casa dos 50 milhões de pessoas sem ou com péssima qualidade em assistência na área de saúde bucal.
A saída para este abismo está na educação e prevenção. Com grande alegria, o município de Londrina assina hoje, durante a abertura do nosso congresso, um convênio com a reconhecida Pastoral da Criança, coordenada pela médica sanitarista Zilda Arns. Dessa forma, a cidade terá no Programa Médico da Família o atendimento básico de saúde bucal. Entenda-se isso como um grande avanço, já que milhares de pessoas que nunca pisaram em um consultório vão aprender noções de higiene. São pequenas ações, mas de valor incalculável que vão resultar – queremos crer que em um futuro não tão distante – em um país com cárie zero.
Aliás, é prevenindo que se reduz o número de doenças, dentes perdidos ou mesmo patologias sérias, como câncer bucal, que, de acordo com o Ministério da Saúde deverá registrar 5 mil mortes no Brasil este ano. Importante ressaltar que o trabalho desenvolvido por várias instituições do País (governos estaduais e municipais) ajudou – e muito – a tentar reduzir o perfil de ‘‘país de desdentados’’ que é o Brasil. Hoje já podemos dizer que temos, em alguns locais, uma geração com índice de cárie bem menor do que o estipulado pela Organização Mundial da Sa© úde (OMS) para o ano 2000, que é de três dentes cariados ou perdidos para crianças de até 12 anos.
Londrina é um destes exemplos. Aqui, já em 1996, quando foi realizado o último levantamento epidemiológico na área bucal, o índice era de 2,26. Por isso é bastante comum se ver hoje jovens mães, sem cáries, com seus bebês no colo já realizando o mesmo tratamento preventivo a que foram submetidas quando crianças. A educação continuada promove a prevenção.
O processo é simples: de um lado pais, professores e dentistas – que têm a função de ensinar e orientar; na outra extremidade, entra o serviço público, mantendo, tratando e reconstituindo. Creio que não estamos relatando um sonho distante.
Há 15 anos um grupo de dentistas daqui de Londrina se propôs a cuidar de bebês que sequer tinham dentes. Claro que estes companheiros heróis foram chamados de loucos. Mas o tempo mostrou que não se tratava de entusiasmo, mas de realidade possível. Hoje a cidade se orgulha da chamada odontologia para bebês, uma modalidade científica desenvolvida por aqui mesmo – no barro vermelho – e que serve de modelo em vários países.
Em meio às dificuldades econômicas, temos cerca de 130 escolas de odontologia no Brasil e que adotam um ensino de Primeiro Mundo. É uma metodologia que se sobressai porque o aluno tem contato com o pacidente desde muito cedo. São treinados à exaustão e desenvolvem grande habilidade. A prática odontológica do Brasil se equipara a qualquer serviço do mundo.
O que temos de lamentar é o baixo poder aquisitivo da população. O tratamento dentário, por sua vez, acaba resultando em custos altíssimos para uma população que tem sua maioria vivendo com menos do que o mínimo necessário. O maior obstáculo para que estabeleça o equilíbrio, ou seja, o acesso aos tratamentos, é justamente a falta de poder aquisitivo.
O que defendemos, juntamente com o avanço tecnológico, são práticas que incorporem o grosso da população aos tratamentos. Defendemos medidas como a que estamos dando início em Londrina, que é a incorporação dos cirurgiões-dentistas no Programa Médico da Família. Um bom começo para a mudança e a criação de uma nova cultura odontológica do País.
- ANTONIO FERELLE é odontopediatra em Londrina e presidente da Associação Odontológica Norte do Paraná, organizadora e promotora do congresso

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