1997 vai ficar na história como um ano dos mais importantes para a história da modernização institucional do país. A partir da emenda constitucional da reeleição e da aprovação da reforma administrativa, das modificações na ordem econômica e do conceito de empresa nacional, da quebra do monopólio das telecomunicações, do petróleo, da navegação de cabotagem e do gás canalizado, o país passou a dispor de uma base mínima para deflagrar um processo de desenvolvimento integrado. Há, sabe-se, muita coisa ainda por fazer e não se pode descartar a possibilidade da nuvem pesada do capital especulativo internacional, ameaçando as bolsas de valores do mundo, vir a baixar violentamente sobre nossas cabeças.
Não há exagero em se afirmar que o Brasil está segurando firme nas rédeas de um cavalo pronto a disparar. O cavaleiro-mor, Fernando Henrique Cardoso, tem todas as condições de chegar inteiro, em outubro de 98, caso consiga se livrar dos obstáculos no meio do caminho, sendo o principal deles a instabilidade que toma conta das bolsas. A questão do emprego, que era um dos cinco dedos programáticos de Fernando Henrique, em sua campanha, pode ser, também, fator de desestabilização. Mas as previsões mostram que, pelos meados do ano, a situação estaria contornada com a geração de milhares de empregos, a partir do gigantesco programa de obras Brasil em Ação. Some-se a isso o poder de fogo dos governos estaduais que privatizaram empresas. Também abrirão frentes de trabalho capazes de equilibrar as tensões sociais provocadas pelo desemprego.
O importante é saber que o país, mesmo sob certo grau de incerteza, saiu do marasmo. Avançou e muito. E os avanços estão contribuindo para germinar um novo tipo de cultura: a cultura da responsabilidade. Já era visível o patamar de racionalidade que crescia, em todas as regiões, a partir dos movimentos de massa dos últimos tempos. A sociedade recebeu uma vacinação ética. A mídia aumentou a sua lupa sobre a vida pública. E o voto ganhou elementos racionais de valor e decisão. Agora, percebe-se mais controle, mais rigor com as coisas, mesmo os pequenos atos cotidianos, como conferir trocados, contas, denunciar tramóias, barganhar preços. O cidadão escala, a cada dia, um passo a mais em sua cidadania.
A conscientização do dever e dos direitos é ampla, pegando todas as classes sociais. No andar mais de baixo, cresce a crítica contra a deterioração dos serviços sociais básicos, a partir da caos no setor de saúde. Tanto é que a ênfase eleitoral e programática de 98 deverá se concentrar num amplo pacote social. Fernando Henrique deverá dizer que, ajeitada a economia, restará ajeitar a cama social, que deixa milhões de brasileiros ao desalento. Nos Estados, os candidatos, situacionistas ou oposicionistas, farão coro a esse tipo de discurso, sem deixar de fora, claro, obras básicas nas áreas do abastecimento de água, saneamento básico, energia elétrica e o sistema viário.
No setor institucional, espera-se que o carro ande mais depressa, até porque o Congresso Nacional já passou a primeira e a segunda marchas, desenvolvendo um volume de atividades ímpar. Nunca se votou tanto como nos últimos tempos. Haverá, como é de esperar, impasses, como a polêmica e confusa reforma da previdência, que está na pauta da convocação extraordinária, em janeiro. Se for jogada para mais adiante, é pouco provável que seja votada nesse Governo. Não se espere de congressista decisão suicida, ou seja, que contrarie interesses de amplos setores da população, em véspera de eleição. E se alguma importante decisão houver, será tomada até maio. Depois dessa data, entraremos no ciclo eleitoral. O clima começará a esquentar, a adrenalina subirá, as tensões se multiplicarão até outubro. Ou novembro, com o segundo turno. Será um deus-nos-acuda.

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