O impacto do uso nocivo do álcool é tema de grande relevância em diferentes aspectos: individual, familiar, social e econômico. O uso nocivo está associado a 60 tipos de doenças e lesões, estando diretamente ligado a acidentes de trânsito, violência, sexo desprotegido e doenças cardíacas e hepáticas, gerando enorme pressão sobre o sistema de saúde, sobrecarregado pelo atendimento às vítimas de acidentes no trânsito e aos pacientes com problemas físicos e psiquiátricos decorrentes deste uso.
Medidas preventivas vêm sendo amplamente discutidas nas esferas política e social, e por autoridades e instituições de saúde. Um dos principais feitos relacionados ao assunto ocorreu em maio de 2010, quando a Organização Mundial da Saúde(OMS)lançou um documento contendo sugestões de estratégias para redução do uso nocivo do álcool em âmbito global. Entre as dez áreas-alvo levantadas estão o monitoramento e a vigilância deste uso, questões relacionadas à propaganda de bebidas alcoólicas, maior controle e fiscalização sobre a venda para crianças e adolescentes e aumento da capacidade do sistema de saúde para o reconhecimento de bebedores com uso problemático e atendimento de dependentes e familiares. Felizmente, podemos dizer que o Brasil avançou, desde a divulgação do documento da OMS, por meio de importantes levantamentos realizados em diversas populações.
Em âmbito nacional, nota-se uma diminuição da dependência de álcool entre os homens, de 13,5% em 2006 para 10,5% em 2012, conforme dados divulgados do segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (2º Lenad), que também mostrou uma manutenção da taxa de abstêmios entre os anos de 2006 e 2012 (48% e 52%, respectivamente). Apesar desses dados serem animadores, houve um aumento do consumo no padrão "binge" (ingestão de 5 ou mais doses para homens e 4 ou mais doses para mulheres, em um período de 2 horas, sendo que 1 dose de bebida alcoólica corresponde a 10-12 g de álcool puro, que equivale a 350 ml de cerveja, 90 ml de vinho ou 30 ml de destilados) de 45% para 59% dos bebedores. Entre as mulheres, o aumento foi ainda maior: de 36% para 49%. Para alguns, tais resultados podem parecer inesperados, mas o aumento desse consumo tem sido reportado também em outros países e é uma tendência aliada às mudanças do papel da mulher na sociedade, com mais responsabilidades e exposição ao álcool.
Esses são apenas alguns exemplos de pesquisas realizadas nos últimos anos que têm o poder de auxiliar o desenvolvimento de políticas públicas e contribuir para o aumento da conscientização da população geral sobre o problema. A sociedade brasileira vem rapidamente se sensibilizando sobre as consequências do uso nocivo do álcool e iniciativas interessantes surgiram no último triênio neste mesmo escopo. Da parte do poder público, vale lembrar as mudanças na legislação sobre álcool e direção e a efetiva fiscalização da chamada "Lei Seca" (Leis no 11.705/2008 e no 12.760/2012) em diversos estados.
Outra frente importante de avanços foi o endurecimento na restrição da venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos de idade, a exemplo da Lei nº 14.592/2011 do Estado de São Paulo, que estabelece punições aos pontos de venda que permitirem o consumo de bebida alcoólica. Tais iniciativas podem ajudar a reduzir o consumo nocivo de álcool, especialmente pelos jovens. Evidentemente, ainda temos muito a avançar, apenas um trabalho conjunto, de toda a sociedade, envolvendo poder público, iniciativa privada, organizações não governamentais e contando com especial engajamento da área médica, poderá ser efetivo para prevenir prejuízos e remediar danos causados pelo uso nocivo do álcool. Para os próximos anos, somente posso desejar que novos parceiros unam-se a nós e que nosso trabalho avance ainda mais.

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