Avança, presidente!
Walmor Macarini
Quando tomaram o poder, em 1964, os militares declaravam que o Brasil estava à beira do abismo. E pouco tempo depois proclamavam que o Brasil havia dado um passo à frente... Agora, com FHC, a imagem se repete com esse marketing do ‘‘Avança Brasil’’, porque no entendimento de quem confere 65% de desaprovação ao desempenho presidencial, o País está de novo à margem da ribanceira.
Jota, o magistral crítico de costumes e chargista deste jornal, deu a fórmula: para o Brasil avançar basta FHC tirar o pé do freio... Acrescentamos nós: basta o presidente e seu superministro permitirem a baixa dos juros e o Brasil avançará sozinho, à revelia deles, ou apesar deles... Mas que seja uma baixa radical, heróica, não essa coisa enganosa que fizeram agora, tirando centavinhos de juros bancários que estão nove vezes acima da inflação oficial.
O presidente e seu superministro seriam honestos com seu propósito de baixar juros se os fixassem no nível da inflação apregoada: em torno de 1,3% ao mês.
FHC imagina fazer a mágica de gerar 8,5 milhões de empregos apenas criando um slogan. Por trás de uma bandeira desfraldada é preciso haver um ideal, e o bipresidente acabou demonstrando que está apenas preocupado, agora, com seu elevado índice de rejeição, que até dias atrás era de 59% e agora subiu para 65%, minguando a aprovação de 12% para 8%.
Só um slogan não basta. Por trás dele é preciso haver um grande projeto, algo consistente que motive e engaje a Nação inteira, que estabeleça uma parceria com os brasileiros, que mobilize os segmentos de produção, que incite à mobilização dos cidadãos, que crie uma euforia nacional.
O presidente FHC não tem um projeto para a agricultura, não tem um projeto para a indústria, não tem um projeto para a educação, não tem um projeto para a saúde. Em verdade, não tem projeto nenhum que represente evolução de alguma coisa. O que se ouve é a persistente e teimosa afirmação de que o programa econômico do governo não será mudado. Então, vê-se que não há nada a esperar deste plano quadrienal denominado ‘‘Avança Brasil’’. Apenas palavras, nada mais de sólido e palpável. Nem de duradouro, pois a plano já se denomina quadrienal, só para o tempo de duração deste mandato. É um plano FHC e não um plano Brasil.
Ao se falar de um projeto para a agricultura, entenda-se um arrojado programa que contemple em primeiro lugar aos agricultores com terra, eis que na extensão serão beneficiados também os colonos sem terra, os brasileiros em geral e a população do mundo carente de alimentos. Entenda-se um programa de expansão das fronteiras de produção e da produtividade (mais rendimento por espaço cultivado), permitindo um salto, provadamente atingível, de 80 milhões para 150 milhões/ano de toneladas de grãos. Essa expansão de fronteiras seria incursionar pelo Cerrado (o imenso triângulo agricultável e sem risco de safra que abarca o grande miolo do Brasil) e pelo Sertão Nordestino (onde só basta cavar poços e extrair a água). Entenda-se opção por melhores sistemas de escoamento de safras, de armazenamento e silagem, eliminando o mais possível a ação sempre oportunista e pouco criteriosa da intermediação, na comercialização do suado produto agrícola. Entenda-se uma política de preços mínimos sustentáveis; de racionalização dos cultivos (e tecnologia, já implantada, não falta); de seguro agrícola honesto e confiável, que não permita a desassistência nem o dolo.
Porque, quando a agricultura vai bem, tudo o mais irá bem.
Não tem o presidente FHC sequer um esboço de projeto para substituição progressiva do sistema de transporte, hoje sustentado nas rodovias – obsoleto, perigoso e antieconômico – pelo das ferrovias e hidrovias, infinitamente mais prático e barato. Não tem um projeto de melhor atendimento de saúde, nem de saúde preventiva. Não tem um projeto educacional – e seria de esperar ao menos isto de um intelectual como FHC. O presidente não tem um programa que coloque dentro de moradias decentes milhões de patrícios que vivem amontoados na promiscuidade dos cubículos.
Também não tem um programa de defesa ambiental (Amazônia primordialmente), destes que venham a encantar o mundo – e FHC acaricia a idéia de ver o mundo encantar-se pelos seus feitos.
O presidente FHC não tem projetos, nem os encomenda a ninguém, porque ele só tem ouvidos para o seu superministro, este que, dentro do Brasil, o mais longe onde esteve foi São Paulo e Rio de Janeiro, já que o mais ele não sabe como é nem onde fica.
Enfim, do mandatário supremo de todos os brasileiros não se ouve sequer um brado que incite à união e à participação. FHC é um grande ausente. Sobretudo um homem imerso na vaidade pessoal, que não admite culpas – preferindo sempre colocá-las em alguém ou em alguma circunstância, nacional ou externa – não aceita críticas nem aconselhamentos. E nem negociar sabe, pois vive às voltas com descontroles verbais, que depois resultam em pouco sinceras explicações e retratações.
Os cidadãos já não respeitam o presidente, até porque o presidente não respeita os cidadãos.
Já escrevemos que uma nação cresce não por graça do governo que tem, mas pelo ideal, inteligência e trabalho de seus cidadãos, porém escrevemos também que o governo pode atrapalhar muito e causar grandes estragos. FHC e seu superministro só precisariam não atrapalhar, e se fizessem apenas isto, por amor à Pátria, já seriam consagrados. Bastaria que deixassem que os 160 milhões de brasileiros trabalhassem em paz, sem onerá-los com tantos entraves e tantos impostos, os juros extorsivos resultando nessa torturante dificuldade para acesso ao dinheiro, afinal um bem de todos, que não deve ser um fim em si, mas um meio, gerador de riqueza e de bem-estar coletivo.
Como diz o cartunista, para o Brasil avançar – e apesar de tudo o Brasil vai avançando, pela bravura dos brasileiros autênticos, que não esmorecem – bastaria que o governo tirasse o pé do freio... Porque do acelerador a Nação se encarrega.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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