Auxílio-reclusão mantém filhos de presos
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domingo, 05 de janeiro de 2003
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
Roubo, estelionato, estupro, assassinato. Muitos crimes levam pessoas para as cadeias todos os dias. Crimes que abalam a sociedade e mexem com a estrutura de várias famílias: a atingida pelo mal e a que convive com o ''bandido''. Mas para essa última, um benefício pago pelo Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) pode garantir, ao menos, uma ajuda finaceira. Trata-se do auxílio-reclusão, pago a dependentes do preso quando este trabalhava com carteira assinada antes de ser detido, ou contribuía com o INSS como autônomo.
É através desse benefício que Cleuza Melo vêm mantendo suas duas filhas com Júlio César de Melo, preso na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) há seis anos por porte ilegal de armas e formação de quadrilha. O valor recebido é de R$ 250 e ajudou Cleuza Melo a comprar o direito de uma casa pela Cohab, ''se não fosse esse auxílio eu não teria como sustentar a casa e as três crianças''. Atualmente ela trabalha como zeladora no Sesc, mas já foi caixa de supermercado e durante um período trabalhou como manicure e pedicure para sobreviver. ''Tem gente que acha injusto a gente receber. Se eu tivesse fora talvez também diria que é injusto, mas como eu vivo o drama, não penso assim. A vítima não foi só quem meu marido atingiu, mas eu e minhas filhas'', garante.
Cleuza conta que quando conheceu seu marido ele era ex-presidiário e tinha arrumado um emprego para conquistá-la. ''Conversei muito com minha mãe e resolvi dar uma chance a ele. Quebrei a cara'', confessa. Hoje ela perdeu até o costume de ir à igreja. ''Tenho vergonha de ir sem ele.'' A vergonha também faz parte do dia-a-dia da filha mais velha, Júlia Vitória, de seis anos. ''Esses dias ela disse na escola que o pai trabalhava como porteiro. O pai dela mandou um cartão que eles (os presos) fizeram e ela queria mostrar na escola mas depois desistiu porque disse que todos saberiam que o pai dela está preso. Deve ser uma dor muito grande'', lamenta Cleuza.
Ana Beatriz, de apenas dois anos, ainda não sofre porque não tem consciência da situação do pai. Cleuza diz que ela é muito apegada ao pai. ''Vê um manequim na vitrine e fala, 'mãe, papai'''. A expectativa da família agora é mudar para a casa nova. ''Ainda não fomos porque estamos esperando ele sair. Esses dias estávamos no ônibus e a Júlia perguntou quando que nós mudaríamos. Eu disse que íamos esperar o pai e ela respondeu: 'se ele sair de lá e aprontar, não vai morar com a gente'. E eu também penso assim, se ele aprontar, não vou querer mais'', salienta.
Cleuza já não sabe mais o que sente pelo marido, que deve ficar mais dois anos preso. ''Ele diz que saiu dessa vida mas tenho medo dele não cumprir a palavra. Não consigo acreditar no que ele diz mas tenho um pouco de esperança'', comenta.
Dona Cenira Souza e Silva também enfrenta o problema de ter um parente preso. Seu filho Jony de Almeida, de 25 anos, está preso há seis anos na PEL por latrocínio. Na época em que ele foi preso, a namorada, Érica Lima, que também está detida pelo mesmo crime, estava grávida. Quando Felipe Mateus de Almeida Santos, 5 anos, nasceu, dona Cenira passou a receber o auxílio-reclusão no valor de R$ 200 para cuidar do menino. ''Uso o dinheiro para comprar roupinhas para ele, para pagar a escola. Divido o valor com a outra filha dele, Laiana Cristina, de 8 anos'', conta.
Dona Cenira ficou sabendo do benefício pela assistente social da PEL. ''Ela conversou comigo e eu juntei os documentos dele. Ele trabalhava no Hospital Evangélico e por isso consegui o benefício. Quase ninguém sabe que esse auxílio existe'', destaca. Ela conta que quando chega domingo o neto já sabe que é dia de visitar o pai. ''Eu cuido dele, inclusive amamentei quando era bebê. A gente paga junto por uma coisa que a gente não fez'', diz ela.


