Autorização para matar
Autorização para matar
Arlete Salvador
Não é possível que se pense seriamente em aliviar a punição aos caminhoneiros por infrações no trânsito. O sol escaldante dos dias de paralisação deve ter afetado o juízo dos trabalhadores que pediram tal privilégio e das autoridades que concordaram com ele. É como dar-lhes autorização para matar. Porque é isso que motoristas irresponsáveis fazem todos os dias neste País.
O novo Código de Trânsito Brasileiro, em vigor há tão pouco tempo, foi celebrado como um dos avanços mais importantes na sociedade brasileira. Atitudes de total desrespeito para com a vida humana, como dirigir embriagado ou dopado, passaram a ser infrações gravíssimas, puníveis com multas altas e até perda da carteira de motorista. Parecia que, finalmente, o País acordava para o fato de que não existem acidentes de trânsito. O que existem são criminosos ao volante e eles devem ser punidos por isso.
Nos últimos dias vem se buscando alternativas para dar aos caminhoneiros o que eles pediram. Como seria inconstitucional criar normas mais brandas só para eles, estuda-se maneiras de perdoar todos os motoristas. Os caminhoneiros, assim, vão conseguindo a proeza de generalizar o tão famoso jeitinho brasileiro. Não são os cidadãos que devem se sujeitar às leis, mas elas que devem atender aos seus interesses particulares.
As leis de trânsito, como estão hoje, são até brandas. Elas obrigam o motorista a atender as mais elementares regras de civilidade e responsabilidade, como respeitar os limites de velocidade, não ultrapassar pela direita, obedecer sinais luminosos e trafegar com o veículo em boas condições. Isso é pedir demais? Não, isso é pedir o mínimo. É tão básico como recomendar ao pedestre que olhe para os dois lados antes de atravessar a rua.
Entre as reivindicações dos caminhoneiros, esta parece ser a menos importante, apenas um item numa longa lista de pedidos. Nada mais natural. O pouco destaque dado às suas consequências é uma demonstração do descaso pela vida humana. Morrer no trânsito ou sofrer ferimentos severos que deixam sequelas para sempre, como aconteceu com o locutor Osmar Santos, costumam ser atribuídos ao azar, à vontade de Deus ou a um carma de vidas passadas. Tanto conformismo me faz lembrar Adoniram Barbosa dizendo paciência, Iracema, paciência, na música em que ele conta a morte da noiva num atropelamento.
As autoridades brasileiras poderiam ter compensado o vexame de ceder a todas exigências dos caminhoneiros se tivessem exigido, como contrapartida, que eles se comprometessem a ser melhores motoristas nas estradas. Está-se fazendo justamente o contrário. Aliviar-lhes a punição é legitimar a idéia de que são donos das estradas e estão liberados para matar. Bom seria se aumentassem as pressões para que respeitem a lei. Alguns motoristas podem até não ter a mínima consideração pela própria vida, mas que pelo menos deixem de ser uma ameaça para os que andam na linha.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





