A história tem revelado que as circunstâncias do cotidiano podem potencializar talentos, tendências e aptidões das pessoas. Seja na história geral dos vultos eméritos da humanidade, seja na história privada, individual, dos vultos anônimos, as adversidades costumam forjar temperamentos fortes e destemidos, e os que as enfrentam superam-se a si mesmos.
A vida pública está repleta dessas ocasiões cujas circunstâncias oportunizam aos homens superarem-se a si próprios, e a darem exemplo de grandeza, de espírito público. Semana passada, no início da semana, houve uma dessas. Segundo a reportagem da jornalista Anna Camanducaia, nesta Folha (dia 9), na madrugada de segunda-feira, dia 8, cerca de vinte homens invadiram a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos da Capital, renderam os seis policiais que estavam no plantão, tomaram deles as chaves da carceragem, dirigiram-se até a cela onde estava preso o suspeito Flávio Cruz e o mataram a tiros.
Flávio Cruz tinha sido preso porque um dia antes de sua morte se envolvera, juntamente com outras três pessoas, num tiroteio contra o policial Jonathan Ferreira, do 9º Distrito. O policial foi baleado e morreu. Dois dos envolvidos conseguiram fugir. Foram presos Flávio e um outro, Reni Feliciano de Almeida. Flávio teria confessado que disparara três vezes na direção do policial. Os suspeitos ficaram em celas separadas.
Os invasores da delegacia estavam todos encapuzados. Demonstraram conhecer as dependências do distrito e os procedimentos do plantão - lembraram-se, ainda, de danificar as câmeras de filmar do sistema de segurança. E não agrediram nenhum dos seis policiais plantonistas.
Essa foi uma ocasião de turbulência que o governador do Estado do Paraná não aproveitou para mostrar grandeza de estadista e prestar contas aos cidadãos, eleitores, contribuintes, paranaenses. Deveria ter convocado a imprensa, imediatamente, e, de público, dar 24 horas para que seu secretário de Segurança Pública desse explicações convincentes a respeito do ocorrido. E com direito a dar murro na mesa e falar alto e com o dedo em riste. O que é isso? Grupo de extermínio? Quadrilheiros queimando arquivo? A sociedade não pode ficar com a ‘‘sensação’’ de insegurança decorrente da dúvida sobre se os matadores do suspeito seriam policiais vingativos ou comparsas precavidos. Mas antes mesmo desse questionamento, a sociedade precisa saber como é possível uma delegacia de polícia ser invadida. É falta de prontidão dos funcionários? É falta de armamento? É falta de investimento? É falta de política pública de segurança? (Evidentemente, o episódio não permite generalizações, pois não faz muito tempo o 5º Distrito da Capital também sofreu uma tentativa de invasão - bandidos querendo resgatar um preso - porém um valoroso policial resistiu bravamente e pôs os invasores para correr).
Agora, qual é o estado de espírito da população quando todas as peças do quebra-cabeça parecem montar uma vingança corporativa (isso reforçado pelas declarações do corregedor da Polícia Civil)? Se havia quatro envolvidos na morte do policial Jonathan, o verdadeiro responsável pelo disparo fatal (a vítima foi atingida por um projétil no abdome) só seria conhecido após o término de um processo criminal, com sentença condenatória irrecorrível - até lá, os envolvidos, para a Constituição da República do Brasil, os suspeitos, são formalmente inocentes. E se houvesse mais suspeitos na cela? Não interessa se o suspeito morto era ex-presidiário, o Estado tem o dever de proteger a vida, a integridade física e moral de quem estiver sob sua custódia. Se funcionar mal, se deixar que alguma agressão aconteça àqueles a quem prendeu, o agredido ou seus familiares (se da agressão advier morte), terá direito a indenização às custas do dinheiro público, pago pelos cidadãos que pagam pensando estar assim garantindo sua segurança.
Apesar da indiferença demonstrada pelo governador, o atentado à delegacia tem, sim, um desdobramento simbólico muito importante. Pode exemplificar que a autoridade pública está fragilizada, que a garantia mínima do poder de polícia institucionalizado deixou de ser um ponto de honra, inclusive para seus próprios agentes.
Delegacia de polícia tem de ser o porto seguro da cidadania. Sem providências urgentes que corrijam essa crise, a pasta da Segurança Pública acabará sendo substituída por outra: a do medo público.
Em tempo: cada um que acredite no que quiser. Para mim, a causa do blecaute de quinta-feira passada foi mesmo um raio: o raio da falta de investimento. Preparemo-nos para tomar banho frio e subir escadas.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado e escritor em Curitiba

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