Os atentados terroristas de Nova York e Washington atingiram não somente os centros máximos do sistema financeiro e de segurança dos EUA mas toda a racionalidade pragmática dominante da modernidade ocidental. Até agora ninguém assumiu a autoria, embora haja a hipótese da mesma ser proveniente do Oriente Médio. Contudo, não se descarta, também, uma possível autoria de alguma organização extremista norte-americana ou, ao menos, de atuação interna, haja vista a complexidade e o êxito da operação.
O que aconteceu só se equipara ao acontecimento do dia 7 de dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram Pearl Harbor. Porém, naquela época, sabia-se quem era o inimigo: ''Ficou evidente que os aviões atacantes eram japoneses eles possuíam prefixos militares em suas asas, ao invés de nomes de linhas aéreas em suas fuselagens... Já o que aconteceu nesta semana foi uma espécie de Pearl Harbor sem a face de um inimigo'', disse o ''The New York Times''.
A formação de movimentos fundamentalistas religiosos de direita nos EUA é vista com preocupação pelos teóricos. Para Noam Chomsky, professor do MIT, especialista em política internacional e um dos principais intelectuais norte-americanos, as pessoas têm crescido alienadas e isoladas. Então, começam a desenvolver atitudes altamente irracionais e autodestrutivas. Como várias formas construtivas e edificantes lhes foram negadas, procuram outros caminhos.
Uma pesquisa feita nos EUA, sobre certas atitudes religiosas, apresenta números assustadores: ''Três quartos da população norte-americana literalmente acreditam em milagres religiosos. A quantidade de pessoas que acreditam no demônio, em ressurreição, em Deus fazendo isso e aquilo outro é surpreendente'' (Chomsky, 1999). Tal estatística é dificilmente encontrada em outro país do mundo industrial. Tanto que Chomsky afirma somente ser possível encontrar números como esses nas mesquitas do Irã, ou numa pesquisa entre idosas da Sicília.
Para Chomsky, o fundamentalismo religioso norte-americano é um fenômeno preocupante, pois ''poderia ser base para um movimento popular extremamente perigoso'', sem contar com a alta instrução dos seus líderes, que ''não são nada ingênuos. Eles têm enormes quantias de dinheiro, estão se organizando, movendo-se como deveriam, e começando dominar gabinetes locais, onde ninguém os percebe'' (ibidem).
Acaso tal leitura não serviria para esclarecer algo de relevante sobre os atentados ocorridos em New York e Washington? Como pode um grupo de pessoas se organizar por um bom tempo, estarem pré-dispostos a cometer o suicídio, sequestrarem simultaneamente quatro aviões (todos decolados em solo americano) e jogá-los, com tão exímia precisão, contra alvos pré-estabelecidos? Quem estaria na liderança? De onde viriam os recursos financeiros para tal ato?
Por enquanto não há provas conhecidas que indiquem a autoria dos atentados. Mas a expiação da culpa pelo terrorismo de há muito vem recaindo principalmente sobre os palestinos, que são considerados, pela maioria dos americanos, como um bando de terroristas. No caso de Oklahoma City, em 1995, a frase do jornalista A. M. Rosenthal, do ''Time'', reflete bem essa mentalidade da mídia e da elite estadunidense: ''Isto apenas demonstra que não estamos lidando adequadamente com o terrorismo do Oriente Médio. Vamos bombardear pra valer.'' E acrescentava: ''Nós ainda não sabemos quem fez isso, mas vamos bombardear o Oriente Médio de qualquer forma.''
Na mesma linha foi o argumento de Howie Carr, apresentador de um programa de entrevistas: ''A bomba de Oklahoma City foi colocada por um punhado de caras com toalhas na cabeça.'' No entanto, depois de todo esse alarido, comprovou-se que o autor do atentado era um ex-combatente norte-americano da Guerra do Golfo, Timothy McVeigh. Isso evidencia que na lógica xenófoba ianque todo o ato terrorista é passível de ser imputado, automaticamente, aos árabes. O que não exclui, porém, como visto, a hipótese de uma autoria de cidadãos norte-americanos.
Contudo, para os americanos é necessária a pré-disposição de destruir tudo aquilo que está fora de controle, tudo aquilo que representa perigo. A frase de Wile Claes, secretário-geral da OTAN, é esclarecedora: ''O fundamentalismo islâmico é tão perigoso quanto o comunismo.'' A verdade é que a política militar externa norte-americana, de 1945 em diante, está impregnada de arbitrariedades, intervenções, assassinatos, financiamento de armas e apoio aos mais infames ditadores...
O atentado terrorista não se justifica, mas seguramente se explica: é consequência direta da própria política internacional desenvolvida pelos EUA desde a segunda metade do século passado, em nada menos criminosa do que a chamada por muitos, unilateralmente ''barbárie terrorista''. Até porque, afora as vítimas civis, não há inocência: a descoberta de nomes, independente de quem for, pode resumir a questão da autoria, mas não a da responsabilidade.

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