Curitiba ''Minha tia tomou um remédio para artrite que foi uma beleza. Foi como tirar a dor com a mão. Você quer que eu veja o nome para você?'' Que atire a primeira pedra ou seria o primeiro comprimido? aquele que nunca ouviu uma frase parecida e correu para comprar o tal medicamento milagroso. Ou, ainda, quem nunca preferiu ir à farmácia perguntar sobre uma pomada boa para ''uma coceirinha que apareceu na mão'', em vez de procurar um dermatologista?
Apesar desta prática ser condenada não apenas pelos médicos, mas também pelos farmacêuticos (profissionais graduados em faculdades de Farmácia), a situação é comum em todo Brasil. Para ter uma idéia da gravidade, o Conselho Regional de Farmácia do Paraná (CRF-PR) calcula que 90% das pessoas procuram primeiro uma farmácia, para só depois, caso a medicação não funcione, ir a um médico. ''E muito dificilmente alguém sai da farmácia sem levar pelo menos um remédio'', diz a presidente em exercício do CRF-PR, Célia Fagundes da Cruz.
O problema é que a automedicação ou autoprescrição pode causar problemas graves, como mascarar sintomas de doenças sérias e até provocar efeitos colaterais indesejados. O uso indiscriminado de antibióticos para o combate a infecções simples, como um resfriado, por exemplo, vai fortalecer as bactérias do organismo, até chegar a um ponto onde nenhum antibiótico consiga acabar com determinadas bactérias super-resistentes. Já uma criança que abusar dos bactericidas certamente será uma séria candidata a ter problemas com a dentição posteriormente.
Assim como os antibióticos, tomar um anti-inflamatório sem prescrição pode resultar em uma úlcera para quem tem problemas gástricos. Até um simples AAS, o famoso Ácido Acetil Salicílico, altamente difundido nos Estados Unidos para a prevenção do infarto, pode se transformar em uma bomba-relógio. Presente em medicamentos simples, como a aspirina, doril e etc, o ácido pode causar hemorragias em pessoas com problemas estomacais, em portadores de dengue ou, pior, aumentar a pressão em hipertensos, ou seja, pessoas que já têm propensão à alta da pressão.
Segundo Célia, até as vitaminas devem ser tomadas com cautela. ''Um dos problemas é que a pessoa deixa de ingerir o produto natural, que é melhor absorvido pelos locais certos do organismo. E vitaminas em excesso também podem causar problemas, as chamadas hipervitaminoses'', diz. É o caso do escorbuto, um problema de pele causado pelo excesso de vitamina C.
A principal prova da enorme demanda das farmácias é a proliferação de estabelecimentos. Em Curitiba, há bairros que chegam a aglomerar mais de cinco farmácias em menos de 500 metros. O Conselho Nacional de Farmácia tem registradas cerca de 55 mil drogarias. Destas, 3,5 mil estão no Paraná, sendo 700 em Curitiba.
''É muita farmácia, dá uma para cada 2 mil habitantes, quando o necessário recomendável é de uma farmnácia para cada 8 mil pessoas'', explica Célia. Nos Estados Unidos, onde o consumismo é grande, também há excesso de farmácias (uma para cada 4 a 5 mil pessoas), ao contrário de países da Europa, onde as pessoas são mais esclarecidas.

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