Curitiba - A chamada ''farmacinha caseira'' está presente em grande parte dos lares brasileiros. A ideia é estar prevenido, já que a doença não avisa quando aparece. Por outro lado, ter medicamentos sempre à mão pode contribuir para um hábito arriscado: a automedicação.
''Se acaba um remédio não tem que ir lá e comprar outro, como fazemos com o xampu'', adverte a farmacêutica Rosiane Zibetti, doutora em ciências pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), que coordena o curso de Farmácia e Bioquímica da Faculdade Pequeno Príncipe (FPP).
Nesta entrevista, ela chama a atenção para os riscos da automedicação, em especial à necessidade de divulgar os danos provocados pelos medicamentos teratogênicos, que causam má-formação no feto e estão disponíveis em qualquer farmácia.
Os riscos da automedicação são bastante divulgados pela imprensa. Por que o número de ocorrências ainda é alto?
O brasileiro faz mau uso dos medicamentos. Está com dor, vai na ''farmacinha caseira'' e toma o que tiver lá. Mesmo que seja remédio da mãe, do marido ou da tia. Há casos de má-formação em bebês porque a grávida tomou o remédio que alguém da família está tomando.
Que tipo de ação governamental deve ser colocada em prática para mudar esse hábito?
O problema está na casa do brasileiro. Quem pode me garantir que o remédio, uma vez na casa do paciente, não vai ser consumido por outra pessoa? A partir do momento que ele leva esse medicamento para casa não tem como controlar quem está usando. O que falta são campanhas sobre os medicamentos.
Mas não deveria haver maior cuidado na prescrição por parte dos médicos?
O farmacêutico é corresponsável se dispensar um medicamento para um paciente que recebeu prescrição incorreta do médico. Os resultados que esse erro pode gerar é de responsabilidade de ambos. Por isso o farmacêutico precisa questionar o paciente no ato de dispensar o remédio. ''O senhor tem problema cardíaco?'' ''Você esta grávida?''
E isso não ocorre?
Foi exatamente o que levantamos numa tese de mestrado, que as farmácias populares de Curitiba não estão preparadas para dispensar os medicamentos. Não temos profissionais preparados. O grande problema da farmácia comunitária é que tem muito balconista e pouco profissional. Existem anti-inflamatórios e remédios para controle da pressão que podem causar má-formação no feto se uma grávida tomar. E são medicamentos que não precisam de receita médica. Quem tem o conhecimento da composição de determinado medicamento e os riscos que uma má administração pode causar é o farmacêutico.
O que falta é conscientização da população, que banaliza o medicamento. Se acaba um remédio não tem que ir lá e comprar outro, com fazemos com o xampu. Realmente precisa continuar o tratamento? Que tipo de medicamento é? Quais os riscos do uso prolongado? O caos do medicamento está instalado, a solução é a união entre os profissionais. O farmacêutico tem que assumir a sua função. Na hora de vender ou aplicar o remédio podemos barrar se julgarmos que há risco. O médico tem responsabilidade, mas se eu dispensar o que ele prescreveu errado, a responsabilidade também é minha.
O brasileiro se expõe mais à intoxicação devido à automedicação. Nossa população não pode sentir dor, você abre a bolsa de um jovem e chega a ter mais de um tipo de medicamento pra dor. A população consome muito por automedicação. Os anti-inflamatórios de tarja vermelha precisam de receita para ser vendidos, mas como ela não fica retida na farmácia você consegue comprar sem problemas. Dois exemplos são justamente os diclofenacos, de potássio e sódico. Pode dar problema na gravidez. O farmacêutico sabe disso, mas nem sempre é ele quem está no balcão das farmácias. E como o brasileiro banaliza o uso do remédio, está com uma dor qualquer, já conhece o medicamento, vai lá e toma. Se for mulher e estiver no início de uma gestação, que muitas vezes nem sabe que está grávida, pode causar problema para o feto.
Não é possível descobrir as reações adversas que determinados medicamentos podem causar antes de lançá-los no mercado?
Leva-se cinco anos para saber. O medicamento tem esse prazo até ser consagrado pelo mercado. São feitos testes in vitro e ensaios em animal, no entanto não há como saber ao certo o que ele pode causar.
Depois que o remédio cai no mercado é que vamos saber se ele causa males a determinados tipos de pessoas ou não. O brasileiro pensa que tudo que é novo é melhor. Mas com medicamento isso não acontece. Como aconteceu com a talidomida no mundo todo. Um remédio prescrito para enjôo que causava teratogênese. Grávidas não podiam utilizar. E ainda há mulheres que utilizam porque alguém da família está tomando.
Então como os médicos prescrevem medicamentos novos e dão amostras grátis durante a consulta?
Justamente. Buscamos conter a visita de representantes nos consultórios médicos. Certa vez me pediram para fazer uma palestra sobre ''empurroterapia'', aí comecei a falar que a empurroterapia começa quando o médico aceita prescrever um medicamento apresentado por representantes, formados em Economia ou Administração. Como que isso acontece? A empurroterapia começa aí, não lá no balconista que vende um remédio que vai ganhar por fora. Começa no consultório médico.

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