A revista ''Veja'' da semana passada dedica 8 páginas à importância da auto-ajuda, citando vários autores, e este jornal publicou, domingo, ensinamentos do psicólogo suíço Kailash Beyer sobre a prática da meditação, como forma de evolução espiritual. A reportagem da tradicional revista é motivada pelo fato de que, nos últimos 8 anos, houve um crescimento de 700% na publicação de obras do gênero, no Brasil, contra apenas 35% dos demais livros. ''Como a religião já não molda os comportamentos do mundo ocidental, as pessoas estão buscando na auto-ajuda o apoio para as suas inquietações'' afirma frei Antonio Moser, diretor-presidente da editora católica Vozes, que dedica 10% de sua produção a obras desse tema.
Auto-ajuda não é o mesmo que iluminação. A primeira trata de estratégias para uma trajetória de sucesso nas relações humanas e nos negócios, pela via do aprimoramento pessoal e da ascensão social, o que constitui uma boa prática de vida e, indiscutivelmente, torna a pessoa melhor e mais feliz. Não lhe dá, porém, a garantia de que continuará sempre assim se, como o ciclista, ela não continuar pedalando... Já a iluminação, quando alcançada, é uma conquista definitiva e iluminação não deve ser confundida com crença religiosa, que confunde fanatismo com força de fé e é crente apenas na intercessão de uma determinada divindade, com desprezo pela que é imanente do próprio indivíduo, não o indivíduo sêr carnal mas a essência divina que habita nele.
A iluminação se opera pelo processo da meditação, que leva a pessoa a direcionar seu pensamento para a divindade que existe em si mesma. Não é algo estratégico como os princípios da auto-ajuda, que visam o triunfo pessoal e o bem-estar o que não é erro, obviamente mas não conduzem ao auto-conhecimento e à conscientização do indivíduo sobre a sua dimensão de ser transcendente e sua relação com a eternidade. As práticas da auto-ajuda, por si sós, não significam um estado de iluminação, mas podem abrir um caminho naquele sentido. Já a iluminação significa o alcance de um grau de transcendência que dispensa as práticas convencionais de auto-ajuda, porque desnecessárias. Para quem já fez a travessia não há necessidade de um barco.
E o que é iluminação? É o indivíduo atingir a compreensão de sua grandeza, como parte inerente que é do macrocosmo em outras palavras, a infinitude de sua dimensão transcendente. Na entrada do Templo de Apolo, em Delfos, estava escrito: ''Conhece-te a ti mesmo'' ou, saiba o que você é, isto não querendo dizer o conhecimento da própria identidade e dos anseios pessoais, mas a consciência acerca de sua origem eterna e a certeza do retorno a ela. E meditação é a pessoa ingressar no silêncio interior e no desligamento de todas as coisas, sem concentração rígida, mas em comunhão serena com sua própria essência e a compreensão de que é um com Deus e que tem em si o poder imanente de Deus.
Nesses momentos não será preciso pedir nada, porque todas as coisas já estão concedidas e dispostas. No silêncio, plasmam-se as respostas que se busca no dia-a-dia, e elas (mais cedo ou mais tarde) virão, pela voz interior traduzida por intuição, ou a voz do Eu superior de cada um. O dom da iluminação é regalia de todos. ''Podeis fazer as obras que faço, e outras ainda maiores''. Este o ensinamento mais revelador mas que não foi entendido nem absorvido, a não ser por poucos, pois exige busca ao invés do comodismo de entregar tudo nas mãos de um suposto salvador, justamente o que indicou aquele caminho e uma vez no caminho, aí sim, todas as ajudas virão por acréscimo. Cada qual traça a caminhada, e por onde andar encontrará os afins.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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