Os anos de estabilidade financeira promoveram grandes mudanças no perfil dos consumidores. O fato de não precisar mais ''correr'' para o mercado para garantir o poder de compra, além dos juros mais baixos, permitiram que o consumidor se acostumasse a fazer grandes aquisições, com parcelamento a perder de vista, e incrementasse a compra no supermercado com produtos até então considerados supérfluos, como iogurtes e biscoitos.

Ao mesmo tempo, as mulheres passaram a influenciar cada vez mais nas compras, e as crianças também fazem suas escolhas. Isso fez com que o mercado se modificasse, com as agências de publicidade tendo que direcionar seus anúncios para outras classes e faixas etárias. Franck Vignard-Rosez, diretor-executivo de Marketing, Parcerias e Novos Negócios da Cetelem no Brasil esteve em Londrina para uma palestra sobre os hábitos do consumidor e falou à FOLHA sobre os novos perfis de compradores.

Qual o perfil atual do consumidor brasileiro?
O consumidor brasileiro vem passando por uma mutação significativa nos últimos três anos. Em 2005, mais da metade da população pertencia às classes D e E, que não conseguia fechar as contas no final do mês. Hoje, a classe C já é a maior classe social, enquanto a D e E reverteram um déficit de cerca de R$17 para apresentar um superávit de R$ 22. Pode parecer pouco, mas, para uma família cuja renda é cerca de R$ 580 faz muita diferença. Este processo começou com a estabilidade econômica do País. Alguns ainda se lembram da época em que a primeira coisa que se fazia ao receber o salário era correr para o supermercado e estocar alimentos. Hoje a população pode gerenciar a sua renda e, aliado a um crédito mais acessível, o consumidor passou a ter uma verdadeira capacidade de compras e investimentos. As mudanças não se resumem somente a esses aspectos financeiros. O consumidor brasileiro está a cada vez mais exigente e quer ver o seu dinheiro ser valorizado.

O que este público de baixa renda, com maior poder aquisitivo, está consumindo mais?
Agora que o orçamento aumentou, o consumidor de classe C quer produtos de qualidade a um preço acessível. A marca importa, principalmente devido à confiança de não levar para casa e gastar um dinheiro escasso com produtos que não irão agradar a família. Quando falamos de investimentos, eletrodomésticos e móveis continuam sendo os campeões de intenção de compra. Mas se destacam, em termos de evolução, o crescimento na intenção de compras de computadores: 1 a cada quatro consumidores da classe C pretende adquirir um em 2008, e celulares, que continua com uma intenção de compra crescente reflexo de um mercado inovador.

O homem ainda decide o que comprar ou a mulher já assumiu esse papel nas famílias?
O avanço das mulheres é definitivamente uma realidade. Segundo o IBGE, em 2001, 15,9% das mulheres eram responsáveis pela sua família, hoje, cerca de 20% das mulheres são responsáveis pela família. Ou seja, quase 1/3 dos chefes de família hoje são mulheres. É o reflexo de uma população feminina economicamente ativa que cresce quase duas vezes mais que a masculina. O resultado é um papel a cada vez mais importante da mulher nas decisões de compras ou investimentos. As empresas já perceberam este avanço e desenham seus produtos ou campanhas pensando neste papel crescente da mulher nas decisões da família.

As crianças estão mesmo influenciando as compras dos pais?
É uma tendência mundial. Fruto das novas tecnologias e dos novos hábitos, as crianças acabam fazendo parte do processo de decisão das famílias. Não somente as crianças sabem o que querem como nunca, mas os pais estão dispostos a ouvi-las. Principalmente nas classes mais altas.

Como os pais podem se ''defender'' disso?
O importante é não priorizar as vontades da criança em detrimento ao bom senso dos pais. É preciso saber o que é importante para a educação e tomar cuidado com a capacidade financeira da família.

Quem se deixa mais seduzir pelas propagandas? O homem ou a mulher?
A indústria de marketing consegue produzir materiais direcionados a diversos perfis. Mas a grande mudança na propaganda é o peso cada vez maior do ''boca a boca''. A internet facilitou este processo, e uma grande campanha de massa não é suficiente para convencer o consumidor. Ele quer ouvir a opinião de amigos, parentes, mas também vai consultar sites, blogs e outras referências. Hoje vemos alguns sites de comércio eletrônico que mostram a avaliação dos próprios consumidores sobre os produtos adquiridos.

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