Quem se dá ao trabalho de analisar as mazelas da política brasileira pode acrescentar a fenômenos já bastante conhecidos – fisiologismo, mandonismo, caciquismo, patrimonialismo, familismo/nepotismo – dois aspectos rotineiros que acabam corroendo perfis e amortecendo a eficácia de projetos políticos: o poder áulico e a fraqueza dos ‘‘santos da casa’’. Trata-se de duas manifestações que acabam trabalhando contra políticos ou mesmo pessoas que galgam altos postos nas administrações pública e privada.
Os áulicos sempre fizeram bem ao coração dos pobres de espírito. Historicamente, sempre estiveram no centro do poder, vendo, ouvindo, desfrutando dos graus mais elevados da intimidade de seus patrões. Nos reinados absolutistas, constituíam uma espécie de colchões da auto-estima de rainhas. No mundo contemporâneo, são assessores de coisa nenhuma ou, eventualmente, de alguma coisa, que, no final, dá no mesmo. Nas administrações, dão palpites, idéias, sugestões que, regra geral, são resultantes de um senso de oportunismo, cuja lógica se ampara na idéia de preservar a própria horta, aguando o jardim emotivo do chefe. Na política, esses ‘‘ascones’’ (assessores de coisa nenhuma) agradam aos mandatários, dizendo o que eles gostariam de ouvir, defendendo-os de acusações, impregnando-se de seus pensamentos e ações, servindo, enfim, de cordão sanitário contra os costumeiros tiros desfechados contra as vidraças.
A corrente áulica inviabiliza um olhar mais objetivo e real dos atores políticos. O palanque é cosmetizado, as cores são falseadas, os ambientes e climas ganham adereços ficcionais e os representantes políticos acabam se imaginando no céu, enquanto sua imagem trafega no inferno ou, quando muito, nas redondezas do purgatório. Os áulicos existem e proliferam porque há corações clamando pela embriaguez do elogio. Quanto mais um homem se embriaga com o mundo, mais intoxicado fica. Quando um político galga um posto mais alto, a floresta se enche de áulicos. É o efeito do que o grande Pompeu, nos tempos de Roma antiga, já reconhecia: ‘‘há mais homens para adorar o sol nascente do que para adorar o sol poente.’’
Se o áulico engessa a criatividade dos governantes e dos representantes sociais, os chamados ‘‘santos da casa’’ navegam num oceano de frustração. Há, reconhecidamente, nas organizações de todos os tipos, assessores altamente qualificados, tarimbados, muitos, até, portadores de altos títulos de especialização. Depois de certo tempo de maturação e experiência nos ambientes de trabalho, passam a ser considerados ‘‘prata da casa’’. Se merecem esse título, para muitos tão honroso, deixam de merecer a consideração, pelo menos no aspecto profissional, de seus chefes. As idéias, as sugestões, as propostas passam a ser consideradas como ‘‘algo comum’’, sem expressividade e dimensão de grandeza. Mesmo ‘‘o gênio da lâmpada’’ surgindo, de repente, pelas mãos milagrosas do ‘‘santo da casa’’ não criará nenhum impacto. E sabemos a razão: ‘‘santo da casa não faz milagre’’.
A depressão, a angústia, a sensação de inutilidade aparecem na esteira do ditado. Pois o ‘‘milagreiro da casa’’, que não faz milagre, vê surgir em sua frente um estranho, levado por amigos do chefe, para abrir uma frente de conselhos e idéias. De coisas banais a sugestões estapafúrdias, tudo será anotado pelo deslumbrado chefe, que pensa estar energizando seu ambiente de criatividade e inovação. O novo ‘‘conselheiro’’ despeja carradas de conversa, regadas a experimentos nem sempre bem-sucedidos de sua trajetória profissional, para deleite e atenção de políticos, empresários e dirigentes, que se acham descobrindo novamente a América. Os ‘‘santos da casa’’ amargam suas angústias, mas não dão o braço a torcer. Sofrem calados. Até que a primeira grande bobagem dos novos ‘‘consultores’’ faça resgatar a idéia de sua pálida assessoria.
E daí? O arremate é no sentido de que ‘‘santo da casa’’, ao perceber que não reza nem missa em capela de fazenda, precisa pegar o boné e passar a pregar em outra freguesia. O louvor, sabe-se, é o reflexo da virtude, mas depende do espelho ou da boca de quem emite a inflexão. Se o louvor aparecer diariamente das proximidades, será falso.
Salomão dizia: ‘‘os vaidosos são o escárnio dos homens sábios, a admiração dos tolos, os ídolos dos parentes e os escravos de suas próprias jactâncias’’.
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e consultor político
[email protected]

mockup