Aulas no horário eleitoral
Não me recordo de ter visto notícia trazendo pesquisa de audiência ao famigerado horário eleitoral gratuito. Se fizeram, provavelmente o resultado deve ter sido baixíssimo. Tanto que, de uns tempos para cá, começaram a enxertar vinhetas de propaganda política na grade da programação normal de rádio e televisão. Daí, por distração ou por preguiça, o radiouvinte, o telespectador, acabam engolindo caras e bocas dos candidatos.
Afinal, o que há de novo no horário do TRE? Nada. Os partidos mais fortes divulgando, em superproduções de marketing, suas obras, suas propostas e críticas; os partidos nanicos, como sempre, ou destilando ódio à burguesia descarrilados com o trem da história do início do século 20 , ou mostrando o álbum de retratos de candidatos sorridentes (líderes comunitários). Os partidos da situação mostrando as qualidades de seu governo e minimizando os defeitos; os partidos de oposição aumentando os defeitos do governo e negando realidade às qualidades, ainda que evidentes. Enfim, o óbvio.
O problema é que o óbvio, quando muito repetido, leva ao tédio, ao cansaço cívico lecionado pela professora Maria Lucia Victor Barbosa, nas páginas desta Folha. Então, corre-se para a videolocadora, ou para a TV por assinatura, ou ao livro, ou ao cochilo. Não, por favor, não pense o leitor que estou menosprezando o palanque eletrônico. Menosprezá-lo seria não criticar. A mídia, como recurso da cidadania, é importantíssima, é necessária, é a única maneira de desfrutarmos dos benefícios da aldeia sem sermos, de fato, uma aldeia. No entanto, não se pode deixar de questionar o mau uso da máquina de comunicação de massa.
Atualmente, do jeito que a coisa está, afora o ufanismo e as bravatas, resta o que? Assistir ao programa eleitoral gratuito para ver quem está se expondo? Divertir-se com nomes engraçados, apelidos mais ainda; ver se encontramos algum conhecido (e exclamarmos: Nossa, como envelheceu!, ou Como engordou!, ou Olha que plástica!). Porque aos partidos nanicos só dá tempo de gritar palavras-de-ordem ou o nome do candidato mais o slogan. Aos partidos grandes, com tempo maior, o espaço é consumido com relatórios cinematográficos e com acusações, insinuações e desdém.
Agora, sempre há a possibilidade de se encontrar farofa azeda no meio do prato-feito eis outro argumento para provar que o horário eleitoral gratuito não é imprestável. Até mesmo as ruindades, oferecidas por alguns políticos, prestam para alguma coisa nem que seja para servir de mau exemplo. Note-se o ocorrido na Capital, no embate entre situação e oposição. Os situacionistas conseguiram direito de resposta no espaço reservado aos oposicionistas, que tinham dito que se o atual prefeito fosse reeleito haveria pedágio nas ruas de Curitiba. Feita a réplica, vieram os oposicionistas, logo em seguida, com a tréplica. O treplicante foi esse senador Roberto Requião, que, até o momento, não é candidato a nada, mas vem aparecendo mais do que os candidatos do seu partido (pesquisas de opinião estão sendo feitas com a hipótese de o senador vir a concorrer. Boatos alarmistas dizem que, às vésperas da eleição, ele substituirá a seus dois irmãos, que também disputam a prefeitura).
A réplica foi repelida no velho estilo requiônico, com fúria e ódio, tendo o senador aproveitado a oportunidade para dizer que era um absurdo existir Justiça Eleitoral no Brasil, um serviço já abolido em diversos países. Ora, ora, não é interessante? Será que o senador, legislador há mais de quatro anos, já apresentou projeto de lei nesse sentido? Ou essa é apenas a reação natural dos vencidos? Pois ele devia saber que o que o povo espera de seus senadores é a defesa da democracia, das liberdades públicas, consequentemente, a defesa de um Poder Judiciário o guardião das leis forte e independente. No entanto, o que tivemos foi mais uma lamentável aula de autocracia. Ou seja, se a Justiça Eleitoral não é servil aos propósitos do senador paranaense, então ela não serve para nada e merece um chute no traseiro. Aliás, nisso ele foi coerente com o seu discurso autocrático a favor da anistia às multas aplicadas por infração eleitoral nos pleitos de 1996 e 1998 (o editorial do jornal O Estado de S.Paulo, do dia último dia 14, disse que o senador era o vice-campeão de infrações eleitorais, devendo multas no valor de valor R$ 175.860,00).
Quer dizer, de repente o divertido horário eleitoral também pode proporcionar essas aulas aos cidadãos, ensinando-nos a todos que a autocracia, latente nos corações e mentes de alguns políticos, vagueia a céu aberto, sempre ameaçando de morte a democracia brasileira.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





