A América Latina não é mais, pelo menos formalmente, aquela imensa colônia que sustentava impérios europeus. Mas, em 500 anos de história, a região não conseguiu sequer ser definida como uma civilização – com identidade cultural uniforme, por exemplo. Continua a ser um apêndice da dita civilização ocidental, capitaneada pela força financeira e militar dos Estados Unidos. Uma periferia, digamos assim. Nossas elites pensam e agem como o americano médio: o mundo é dividido entre nós e eles. Nossos governantes agem e pensam como George W. Bush: o mundo é dividido entre os civilizados e os bárbaros. Nenhum dos grandes acontecimentos ocorridos desde o fim da Guerra Fria teve a América Latina como palco. Por isso, a região foi sempre uma atriz coadjuvante. Talvez porque (ainda bem) não tenha guerras étnicas, tribais ou religiosas. Mesmo assim, é errado supor que a América Latina se revelou um fracasso histórico (quem sabe se, usando bem a dialética, não podemos até caracterizá-la como civilização?). No entanto, da forma como Estados e povos latinos têm se comportado, a região corre um grande risco de malograr definitivamente. E em função de motivações estritamente econômicas!
Um estudo divulgado esta semana pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) mostra que estamos envelhecendo – daqui a 50 anos, pelo menos 22% dos latinos terão mais de 60 anos. E que temos ficado cada vez mais pobres. Envelhecemos nessa conjunção absurda de desigualdade social e fraco telhado previdenciário. A Argentina, tida por muitas décadas como um modelo para o continente em política econômica, quebrou. Privatizou rapidamente e sem critérios claros até as bodegas e ainda usou mal os recursos provenientes de tal feito. Hoje, tem 44% da sua população vivendo na pobreza e com uma auto-estima tão em baixa que aceita até uma intervenção estrangeira. Na Colômbia, surge sem que se faça nada para impedir um estado selvagem, com leis escritas à bala e revisadas com drogas, mas com origem na miséria. Na Venezuela, a fome e a desesperança produzem conflitos, greves e manifestações – além de trazer de volta o fantasma dos golpes militares. No Brasil... Bem, sobre o Brasil não há muito o que comentar. O que preocupa é que, em breve, talvez vejamos a terra que Simon Bolivar sonhou um dia libertar mendigando o mais infame tipo de ajuda externa – aquela estatal e direta, que compra consciências e tem objetivos sujos, como à dada ao Afeganistão, Paquistão e outros países de passado nobre e presente desonrado. Porque o outro tipo de ajuda (os tais investimentos estrangeiros que passeiam pelas bolsas) a gente não só aceitou como sublimou.
RENATO FERRAZ é jornalista em Brasília

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