Os jornais já começam a registrar indícios de uma rusga diplomática entre o governo de Fernando Henrique Cardoso e o governo de Bill Clinton. O pivô da briga, como dizem nas telenovelas, é o tal do Mercosul.
O Mercosul, o mercado de livre comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai está progredindo, pelo menos na aparência, muito mais depressa do que esparavam os seus participantes. Em Brasília e em Buenos Aires, os governos estão mais do que contentes com o avanço do comércio entre os dois países. E até se acredita que o presidente Menem enfrentaria hoje grandes dificuldades não fossem tão boas as vendas de produtos argentinos no mercado brasileiro.
Fontes em Brasília dizem que esse inesperado sucesso do Mercosul está provocando irritação em Washington. Os EUA estão fora desse novo mercado do sul do continente e não têm registrado progresso em consolidar o mercado que eles montaram, ao norte, com o México e o Canadá, o Nafta.
Em dezembro de 1995, o México teve um grande colapso financeiro, que custou mnuito dinheiro aos investidores privados americanos. Desde então, o Nafta perdeu popularidade nos EUA. O desastre mexicano quase acabou também com a economia dos países do Mercosul. Por pouco a Argentina não entrou em parafuso. E o Brasil, em março de 1995, teve que dar espetacular freada em sua economia para garantir a sobrevivência das reservas de divisas. Tudo isso ficou batizado como ‘‘o efeito tequila’’.
A situação atual no hemisfério é a seguinte: o Mercosul está indo bem, apesar das fragilidades de seus membros; e o Nafta está parado, esperando a recuperação mexicana, que está demorando. O Chile, que antes queria entrar no Nafta, está se aproximando do Mercosul. E, algumas semanas atrás, Bill Clinton obteve o seu segundo termo na Casa Branca.
Clinton havia proposto em 1994, durante uma cúpula de presidentes do continente realizada em Miami, que as Américas formassem um só e gigantesco mercado comum, por volta do ano de 2005. Com a confirmação de seu mandato, Clinton está agora retomando essa idéia.
Brasília, contudo, acharia melhor antes consolidar o Mercosul e lentamente ampliar o número de seus membros do que logo trabalhar para formar o futuro grande mercado das Américas, talvez via Nafta. Daí as rusgas que se noticiam hoje entre as duas capitais. Note-se que as questões são teóricas, porque os mercados em construção ainda estão na fase inicial. Mas a discussão promete ser longa e alcançar o século 21.
- LILLIAN WITTE FIBE é jornalista em São Paulo.

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