Já escrevi que religião - no sentido de religação com nossa gênese divina - difere das religiões fundamentadas em dogmas eclesiais e sobretudo daquelas instaladas nos "templos eletrônicos" que misturam pregação com o apelo por arrecadação financeira. Ser religioso no sentido de obedecer fielmente os mandamentos da igreja a que se está filiado é uma situação de vínculo com essa corporação e não propriamente um estado de plena comunhão com Deus, porque esta só ocorre quando se avança em grau de espiritualidade. Ser espiritual é nos compreendermos unos com a Criação e não seres à parte; é transcender certas limitações estabelecidas pelas religiões dominantes. Porque estas se estruturam basicamente na união de fiéis em torno de um sistema e não propriamente na evolução espiritual.
De qualquer modo, as religiões, com todos seus acertos e equívocos, ao menos têm mantido-nos fiéis a crença na existência de um poder divino superior, ou eles poderiam ter sucumbido pela desesperança. O erro é mantê-los atrelados a obscuras tradições, sem permitir que se libertem de amarras seculares, como o invento do "castigo divino" de arder num "inferno de fogo", a negação de que somos seres evolucionários e a crença de que, neste universo de dimensões inimagináveis, só nós terráqueos existimos como seres humanos.
Todas as igrejas de regimes inflexíveis - no sentido de não buscarem outros ensinamentos fora de seu próprio meio - são fundamentalistas e geram facções de fanatismo. E não existe nada mais perigoso do que o fanatismo chegando ao ponto de exaustão, porque traz em seu bojo as guerras, o terrorismo e as atrocidades. Assim foi com a Inquisição, perpetrada (nos principais países da Europa de então) pela Igreja Católica e que durou setecentos anos (de 1184 a 1908, ou um pouco mais). O Estado era parceiro e incumbia-se das execuções, porque prevaleciam também interesses políticos, sociais e econômicos. Esses dois poderes juntos formaram um dos mais terríveis períodos da história da intolerância. Também praticaram atrocidades - contra os que contrariavam os postulados da Reforma - as igrejas protestantes lideradas por Martinho Lutero (que viveu de 1483 a 1546) e por João Calvino (que viveu de 1509 a 1564). E assim é atualmente com os fundamentalistas islâmicos. Houve grandes progressos até os nossos dias, porque a Igreja Católica hoje faz o contrário, ao defender a vida pela abominação do aborto e de práticas anticoncepcionais; e o Islã dominante não fala pela voz dos fanáticos. Contudo, essas correntes ainda buscam superar-se umas às outras na disputa por fiéis.
Uma religião genuína pode subsistir sem vínculo com uma corporação, porque não tem necessidade de uma instituição que lhe imponha regulamentos. O que se estriba na fé consciente não precisa depender de uma fundamentação reguladora e que force a obediências. A religião superlativa é aquela que leva ao discernimento da verdade, e esta pode ser sintetizada pelo entendimento de que somos progênie do Pai Universal e, portanto, uma grande irmandade.
A religião é boa quando capacita o homem a amar o seu Criador e amar aos coirmãos; é boa quando amplia o padrão moral do indivíduo e exalta nele os atributos da bondade e da retidão e o faz altruísta, tolerante, solidário, paciente e generoso. Uma religião genuína edifica o homem e afasta-o da ganância, da competição predadora, da inveja, da injustiça e da maledicência; expande sua iluminação e desperta-o para uma ampliada cosmovisão, fazendo-o sabedor de que integra a Suprema Consciência Universal a que se dá o nome de Deus.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup