Atos ridículos de homens públicos
Não é um pouco de gás gasto a mais no ar-condicionado de um automóvel oficial que irá fazer o Brasil mais pobre. O mal está no desrespeito ao dinheiro público e à falta de decoro. Sob o título O frescor de Meirelles, o audaz jornalista Cláudio Humberto escreveu ontem em sua coluna que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, cuida do corpinho fazendo pilates em academia de Brasília. É alvo de malhação dos colegas, a quem não cumprimenta, pelo aparato de três seguranças que o seguem, inclusive dentro da academia, e de outros que mantêm o carro e o ar-condicionado ligados por uma hora, à sua espera. E à nossa custa. Enquanto isso ocorre, o pré-candidato presidencial Anthony Garotinho continua sua greve de fome, que poderia entrar no livro Guiness das ridicularizações e assim o Brasil seria contemplado com mais um troféu de coisas extravagantes. O mal não é a greve, porque cada cidadão tem o livre-arbítrio de autoflagelar-se, mas sim a causa, a de ver seu nome exposto em denúncias de irregularidades como homem público. E o fato de ele ser um aspirante ao cargo máximo da República. É sempre oportuno rememorar, entre as cenas ridículas, a dança da deslumbrada deputada no plenário da Câmara Federal, e não que houvesse mal em rebolar-se, como fez, mas sim no motivo, que era a não-cassação de um colega envolvido em denúncia de corrupção. O espetáculo converteu-se numa provocação a toda a nação. Mais que isto, num deboche. E falar dos dólares na cueca é sempre uma lembrança atual, para mostrar atos de uma mesma comédia. E os pronunciamentos? Estes enriquecem o folclore político, como o do vereador que defendeu a gratuidade do telefone celular, aos colegas, para poderem receber ligações a cobrar do povo pobre. E mais: que igualmente pobres eram os pares que às vezes não têm dinheiro para levar mantimento para a família. O fato de o presidente da República às vezes falar errado não chega a ser grave, a não ser os arranhões à língua pátria. É o conteúdo de certos ditos que ridicularizam os homens públicos. Isto somado à pouca operância e às histórias de corrupção, lançam todos os políticos na vala comum, sendo preciso ir coando as águas para separar os bons. Porque, por honra da verdade, eles existem. Em Londrina, o diretor de Trânsito da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização especialista no não, no é difícil, no não há verba (só faltando dizer que também não há diretor de Trânsito) declara na Câmara de Vereadores que está estudando o incremento da receita, uma delas pela aplicação de multas. De mais multas, entenda-se, porque a média atual é de 1.600 por mês. Se há tantos infratores e é certo que eles existem iria sobrar dinheiro para a melhoria do sistema viário se fosse eliminado o elevado gasto com os agentes multadores e seus aparatos motorizados. E quem sabe isto resultaria em menos infratores. São, no geral, as posturas ridículas de certos homens públicos, as suas palavras e a corrupção, que os desqualificam e os expõem à execração popular. Esses espetáculos convertem-se em provocação a toda a nação. Mais que isto, em deboche.





