Todos já ouvimos que estamos conectados uns aos outros. Isso vem de muito antes do próprio desenvolvimento da internet. A conexão entre os humanos se dá a partir das interconexões dos grupos sociais. Em psicodrama dizemos que cada um de nós está cercado por seu átomo social. Imagine-se na sua família como o núcleo de um átomo e que cada pessoa ao seu redor, no contexto familiar, sejam as partes desse seu átomo. Mais do que isso, imagine agora que cada grupo ao qual você tenha algum pertencimento esteja circulando também ao seu redor. Desse modo, é você o responsável pela conexão entre eles.

Pense agora que cada pessoa que forma esses tantos grupos sociais aos quais você pertence são os núcleos de seus próprios átomos e estão circundados por seus átomos. Moreno, o criador do Psicodrama, já se interessava por essas conexões e nos efeitos sociais advindos delas. Essa intersecção garantida entre todos os grupos do planeta pela vida de cada ser humano faz com qualquer atitude individual sempre traga efeitos no coletivo. A presença ou ausência de uma pessoa influenciará a própria dinâmica de qualquer grupo e essa dinâmica influenciará os grupos que se relacionam com esse. E assim por diante. Essas são as verdadeiras redes sociais.

Moreno percebeu isso e criou a sociometria, ciência que considera as distâncias afetivas, emocionais e sociais que nos aproximam e nos separam. A internet usa desse conhecimento para nos aproximarmos ainda mais. Quem diria que um vídeo pudesse ser visto no Japão ou na China apenas poucos minutos depois de ser produzido na menor favela da América do Sul apenas por um processo a que batizamos de viralização.

E eis que estamos sendo obrigados a aprender tudo isso com bastante medo e sofrimento, tanto físico quanto mental. Seremos todos tomados por esse vírus que, assim como um vídeo engraçado ou violento, e que se aproveitando da mesma lógica que a utilizada pela rede de computadores, quer seja as nossas verdadeiras redes sociais, “viralizou”? Como a decisão individual de alguém infectado na China fez com que essa doença atingisse a cidade de Cianorte, no Paraná? Por que fechar a indústria e o comércio e quais as relações entre as classes sociais e o adoecimento? Moreno já perguntara: quem sobreviverá? E somos obrigados a compreender que nossa decisão individual, como sujeitos livres e autônomos, irá incidir sobre toda a coletividade, talvez até exagerando bastante, sobre a continuação da humanidade.

Estamos muitos de nós fechados em nossas casas, afastados de grande parte do nosso átomo social. E sofremos por isso. Sentimo-nos sós, em muito porque acostumáramos a uma convivência que nos incluía em diversos grupos, que sustentavam muitas maneiras de existirmos. Afinal, só podemos ser o papel que estamos desempenhando, e confirmados exatamente do grupo em que estamos inseridos. No aqui e agora. Nesse sentido, ficar o dia todo em casa pode ser gerador de ansiedade por falta de criatividade. Para alguns essa dimensão da vida que força dias de isolamento social se confunde com solidão. Não se trata da mesma coisa, por óbvio. Será necessário sustentarmos esse insulamento para estarmos todos mais seguros? Ainda nos resta liberdade de escolha?

Talvez não encontremos resposta para essas questões. Mas com certeza, é a hora para repensarmos a maneira com que estamos nos apropriando de nossa existência e das representações que criamos em cada papel para o qual somos convocados. Isso de alguma maneira contribuirá para levarmos mais a sério nossas atitudes individuais compreendendo suas ressonâncias na coletividade.

Pode ser que de nada sirva para interromper o alastramento do coronavírus, mas pode ajudar a nos manter com as mãos limpas. Ou a compreender melhor a situação das pessoas que passam ao nosso lado pelas ruas e calçadas da vida, isoladas de tudo e todos, passando fome de comida e de gente.

Paulo Cesar de Oliveira, psicólogo, psicodramatista e psicoterapeuta em Londrina

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