Atleticanos, a luta continua
Atleticanos, a luta continua
Há amor e esperança por trás da angústia. É preciso acreditar nisso para não enlouquecer(Fausto Wolff)
Roseli Valério
Em poucos minutos passei do estado de sonolência para o de pesadelo. Foi na noite de quinta-feira, 5, quando despertei do torpor que a telinha me envolvia com o insosso (para mim) São Paulo x Corinthians. O narrador do jogo dava o resultado do julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em que o Atlético Paranaense foi punido por unanimidade (outra coisa difícil de engolir) com a suspensão de um ano, proibido por 12 longos meses de realizar qualquer partida de futebol. E para o seu presidente, Mário Celso Petráglia, coisa ainda pior. Os termos banido e eliminado do futebol brasileiro são muito fortes. A cena que vem à lembrança é um paredão e o pelotão de fuzilamento. No Rio de Janeiro, todos devem estar muito tranquilos agora. Os 11 auditores, com a consciência do dever cumprido, e a diretoria do Fluminense, time diretamente beneficiado com o resultado do STJD.
Pela manhã, depois de uma noite maldormida até por ter recebido um telefonema de pêsames de um coxabranca, me recusava a acreditar nesta tragédia para o time e seus torcedores. Mas os telejornais matutinos confirmaram tudo e nas rádios não se falava noutra coisa. Visto minha camiseta do Atlético e me sinto um pouco melhor. Antes de sair para o trabalho, meu filho rubro-negro, de sete anos, pergunta meio dormindo se o Atlético jogou e ganhou. Respondo que sim e que não. Ele não entende então porque estou uniformizada para ir às ruas.
- O que fizeram com o Atlético? - A pergunta da criança me comove, e tento explicar o inexplicável (ou quase). Falo que jogamos, não em campo, todos os argumentos que dentro da lei nos inocentavam da suposta armação do presidente Petráglia com o ex-presidente da Conaf, Ivens Mendes. Mas perdemos, apesar da inexistência de indícios ou de fatos que ligassem o clube à compra de resultados favoráveis. Sem entender direito, meu filho, na sua confusão, pede uma explicação para estar usando a camisa. Tomada pela paixão e pela indignação, sou curta e grossa: este é o momento do torcedor atleticano demonstrar que acima de tudo está seu amor pelo time. Que não nos fantasiamos só nas vitórias. Isso é muito fácil, como fazem outras torcidas. Entristecidos, recorremos ao vermelho e preto, nossas cores tão fortes, para dizer que resistimos. Fanáticos ou não, ficaremos leais ao clube que já nos emocionou de tantas formas.
Na rua, olhar de frente os adversários do Coritiba e do Paraná, que se neste primeiro momento tripudiam sobre a nossa sorte, com um mínimo de inteligência mais tarde perceberão que a punição ao Atlético comprometerá o futebol paranaense por todo um ano. Não fomos apenas nós que perdemos. A derrota, e aqui vai o óbvio, foi do futebol paranaense. Ao terminar esse desabafo, desculpe o leitor pelo coloquial do texto, lamento pelas obras da nova Baixada (e aí o atleticano já estava preocupado, com medo de perder a magia do sagrado Caldeirão), e pelos jogadores que irão desembarcar em outros campos. Adeus Oséas, Paulo Rink, Andrei e todos os outros.
Atleticana desde criancinha, quando cheguei a Curitiba e fui influenciada pelos irmãos (mais tarde, conselheiros do clube), lembro agora de uma ironia, uma peça do destino. Cedendo também às pressões do Fluminense do Rio, o STJD puniu o Atlético e seu presidente com extremo rigor. Justamente o Fluminense, time pelo qual sempre tive simpatia entre os cariocas a ponto de, na década de setenta, pré-adolescente, desafiar a convencional Curitiba desfilando com uma camiseta tricolor. Devo ter sido uma das primeiras a sair nas ruas assim.
- ROSELI VALÉRIO é jornalista em Curitiba.





