Atestado de subserviência
A decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso de enviar o casal de sequestradores canadenses Christine Lamont e David Spencer para que cumpram o restante da pena a que foram condenados em seu país de origem é um atestado de subserviência. Christine e David, com mais oito pessoas (chilenos, argentinos e um brasileiro), sequestraram o empresário Abílio Diniz e por isso foram condenados a 28 anos de prisão, parte dos quais já foram cumpridos.
Em 1992, um acordo para a transferência dos sequestradores canadenses foi aprovado pelo Senado brasileiro e é baseado nele que agora se pretende enviar o casal de volta para o Canadá. Evidentemente, antes disso, acordos semelhantes teriam de ser feitos também com o Chile e com a Argentina para que os sequestradores desses países tivessem idêntico tratamento privilegiado.
Na verdade, essa infeliz operação, idealizada pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos (SNDH), já mereceu o amplo repúdio de 68% dos paulistanos ouvidos em pesquisa realizada pela InformEstado. As pessoas consultadas desconfiam - com toda a razão - que o eventual envio dos sequestradores para seus países de origem seja apenas um pretexto para libertá-los.
Em sintonia com os resultados da enquete feita com leitores de ‘‘O Estado de S. Paulo’’, o senador Antônio Carlos Magalhães, presidente do Senado Federal, lembrou, com sua habitual contundência, que o episódio mostra apenas que a política de direitos humanos no Brasil só funciona a favor dos que praticam crimes, inclusive hediondos, como é o caso dos sequestros. O senador baiano foi mais longe ao revelar que o Senado, hoje, não está mais disposto a aprovar acordos semelhantes ao de 1992 com o Canadá.
Por sua vez, o líder do PSDB na Câmara, deputado Aécio Neves, observou que a decisão de FHC pode estabelecer um precedente perigoso, já que o acordo assinado com o Canadá permite ser usado pelos sequestradores como válvula de escape para a prática de crimes hediondos. E até mesmo para incentivá-los!
Por essas razões - todas de extremo bom senso - é conveniente o governo esquecer o assunto. Cumpram-se as leis brasileiras, já que o crime foi cometido aqui. Quando os sequestradores forem soltos, em decorrência de alguma regalia permitida pelas leis brasileiras, por já terem cumprido parte da pena, ou por bom comportamento, que eles regressem a seus países de origem.
De outra forma, o próprio governo estará dando um mau exemplo ao acreditar que o sequestro tenha tido finalidades políticas e, principalmente, ao incentivar bandidos e malfeitores internacionais (das diversas máfias existentes, do narcotráfico e da ‘‘lavagem’’ do dinheiro, do Cartel de Medelin, dentre outras) a aumentar ainda mais as suas operações criminosas em território nacional.
A anunciada disposição de FHC (de enviar o casal de sequestradores para o Canadá), atitude de aparente tolerância e ambiguidade, na verdade, só servirá, se de fato vier a ser tomada, para reforçar ainda mais a imagem que o Brasil tem no exterior de ‘‘paraíso’’ da impunidade.
Mudar essa imagem negativa também deve ser um dos objetivos permanentes da política externa brasileira. Caso contrário, de nada terá adiantado o sacrifício de toda a sociedade para estabilizar a moeda e a economia do País, fatos estes tão positivos que não podem ser maculados por essa infeliz intenção ‘‘humanitária’’ do governo.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)

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