Aterro do Igapó e a política de fundos de vale - Nestor Razende
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de setembro de 1998
Nestor Razende 
Não bastassem os agentes poluidores, uma nova ameaça paira sobre o Lago Igapó. Creio que nenhum cidadão londrinense seja contrário a investimentos em nossa cidade. Porém, há que perguntar: por que ele deve ser realizado sobre uma área pública reconhecida como um dos mais belos cenários urbanos que possuímos? Por que um patrimônio público como este, marcado por longas perspectivas visuais e contornos rítmicos diferenciados que emprestam beleza ao lugar e ao desenho urbano da cidade, deve ser entregue ao capital privado e à edificação?
O problema desta triste realidade está na insensibilidade de nossos governantes e na sua falta de conhecimento acerca das questões ambientais e de desenho das cidades.
Causa-me espanto ao ver que parte destes governantes, quando vão em passeio à Inglaterra, Alemanha, Canadá, França, Holanda, entre outros países, fiquem maravilhados com os parques que visitam e, neste instante, dão vazão ao reconhecimento de sua alma: estes espaços são fundamentais para a qualidade de vida nas cidades modernas. Ao retornarem, tomam decisões que contrariam aquilo que os encantou.
A estes e aos londrinenses é preciso recordar, até como parte de meu dever como profissional, que a questão dos fundos de vale em Londrina tem uma importância muito maior que se pressupõe. Muito acima de qualquer investimento em centro de lazer, preservar os nossos fundos de vale contra a ocupação urbana é uma questão política e técnica.
Durante décadas, num trabalho paciente e comprometido em criar espaços para melhoria da qualidade de vida dos londrinenses, o poder público municipal investiu e retirou da iniciativa privada, em cada loteamento, boa parte dos fundos de vale. E, numa atitude acertada, reservou-os para serem públicos; ou seja, de todos nós.
Tecnicamente é uma atitude correta na medida em que evitamos os sérios problemas sociais e econômicos decorrentes de enchentes; facilitamos e barateamos o serviço de escoamento de águas pluviais; melhoramos a ventilação das áreas urbanas; atenuamos os efeitos do calor quando os ventos que adentram os vales empurram a brisa fresca dos vales sombreados para as encostas lindeiras; permitimos variação no ritmo dos espaços edificados, ajudamos a preservar a fauna e a flora e a preservar este inestimável patrimônio que é a qualidade da água dos rios e ribeirões, entre outros fatores.
Um visitante logo percebe que a beleza urbana londrinense reside na sua paisagem que se modifica a partir dos fundos de vales para os espigões, proporcionando situações de alternância entre espaços construídos e espaços livres/vazios, e criando riqueza nos visuais e perspectivas da cidade. Não é por acaso que nosso principal cartão-postal é o Lago Igapó! São qualidades inerentes ao seu lugar!
Urbanistas e planejadores urbanos de projeção internacional têm-nos perguntado como é que Londrina conseguiu, ao longo de sua história, preservar estas faixas de terras, reconhecendo neste processo, talvez, o único exemplo de política urbana a ser copiado por outros municípios. Isto por quê? Porque nos possibilita ter parques lineares, públicos, arborizados, com equipamento público de lazer, ciclovias interligando a cidade etc., nas proximidades de cada bairro. Qual cidade dispõe desta riqueza?
A pergunta que fica é: por que vamos reiniciar a ocupação urbana dos fundos de vale? No passado o poder público não teve de investir pesadas somas na preservação destas áreas de terras? Por que ocupá-las?
Já não bastam os exemplos das administrações anteriores? Uma delas já aterrou, anos atrás, com restos de construções, uma parte do Vale do Igapó e, em uma de suas margens fez edificar um espaço para abrigar o Corpo de Bombeiros, estabelecendo uma arquitetura ruim e mal posicionada, e que destoa da paisagem circundante. À época, justificou-se a ocupação dizendo que Londrina não dispunha de recursos financeiros para adquirir um outro terreno.
Tivemos uma administração cujo prefeito havia escrito um livro sobre meio ambiente. Mas não se furtou em assinar a doação de área de terras situada em fundo de vale para a implantação de clube de lazer. Neste exemplo, um muro de 3 metros hoje impede o acesso dos moradores da Rua Villa-Lobos, além da construção de piscinas sobre áreas de afloramento de lençol freático.
Agora, a nova ameaça provém de uma administração que, de um lado retira (acertadamente) as ocupações irregulares em fundos de vales, promovendo a remoção de moradores. Justifica com a necessidade de proteger os mananciais de fundos de vales. De outro lado, patrocina iniciativas de doação de área de terras em fundo de vale a empresários para ocupar um dos mais belos espaços urbanos de Londrina - o aterro do Igapó.
A iniciativa do Executivo, aliás, contraria ações de seu órgão de planejamento - o IPPUL - o qual revelou ter um projeto de paisagismo e urbanização do aterro e a sua consequente entrega ao domínio público. Mais contraditório ainda é que a administração revela a intenção (o projeto já existe) de reproduzir a boa experiência do Zerão e do Lago Igapó na região norte da cidade. Diga-se de passagem, projeto este correto dentro do contexto da política urbana local.
Quem afinal define os termos da política urbana em Londrina? Por que o IPPUL tem propostas coerentes para o aterro do Igapó e estas propostas não se concretizam? Por que estamos trocando um parque público que tem a possibilidade de tornar-se um imenso jardim (semelhante àqueles que os políticos tanto admiram quando vão à Europa) por um projeto que exigirá imensas áreas de estacionamento e áreas edificadas? Por que não construir este empreendimento em outro local? Será que vamos repetir as justificativas desastrosas dos anos anteriores? Será que não aprendemos nada com os erros passados? Qual investimento irá preferir a população, em especial dos bairros próximos: um parque público ou um centro privado trazendo consigo o barulho noturno, a concentração de trânsito nas artérias principais de acesso e outros infortúnios?
Com o aterro do Igapó transformado na continuidade do Zerão e na reprodução desta experiência na zona norte certamente escreveríamos um novo capítulo nas questões ambientais em Londrina. Esta não é somente uma decisão técnica mas política, tomada por políticos comprometidos com as expectativas de futuro das cidades. É também uma decisão tomada no contexto social na medida em que o Plano Diretor de Londrina foi discutido e aprovado na Câmara Municipal e este documento, orientador da política urbana de Londrina, impede a edificação em áreas de fundos de vale.
Quero acreditar na sensibilidade política do nosso alcaide: mais votos fornece um parque público (que nunca será esquecido pela população) do que um centro de lazer privado, condenado a sempre recordar as tristes consequências dos atos praticados para atender interesses que não consigo compreender.
- NESTOR RAZENTE, arquiteto e urbanista, é professor universitário de Planejamento Urbano em Londrina


