Distúrbio específico do aprendizado da leitura e da escrita, a dislexia toma a pauta de assuntos ao ser abordada na novela ''Duas Caras'', da TV Globo. Para o fonoaudiólogo, especialista em linguagem e doutor em Educação, Jaime Zorzi, essa dificuldade para ler, com limitações para transformar palavras escritas em faladas e também quanto à escrita correta, pode estar presente em todas as escolas.

Em entrevista à FOLHA, Zorzi afirma que a dislexia é usada como ''bode expiatório'' para justificar a defasagem de aprendizado. Apesar disso, não pode deixar de ser encarada como um problema que merece tratamento, com acompanhamento conjunto entre educadores, pais e especialistas no assunto.

A personagem Clarissa, de ''Duas Caras'', é disléxica. O Brasil acordou para o tema?
O aparecimento em uma novela naturalmente chama a atenção e contribui para que este problema se transforme em um tema bastante comentado. Mas a dislexia já rende discussão há algum tempo no Brasil. Uma das razões para explicar a maior atenção sobre o problema é o alto índice de crianças com baixo desempenho escolar, principalmente na aprendizagem das habilidades básicas de ler e escrever. Na realidade, às vezes a dislexia serve de bode expiatório, quando todas as crianças não estão aprendendo devidamente devem ter um problema desta natureza.

Isto não é verdade?
Não. Os índices de não-aprendizado superam qualquer estimativa de incidência que a dislexia possa ter. Existem problemas de outra natureza provocando baixo rendimento. De qualquer modo, é muito importante que se conheça de forma mais aprofundada este distúrbio, as limitações que ele causa e, acima de tudo, deixar explícito que mesmo os disléxicos podem aprender.

E como fazê-los aprender?
Algumas condições são necessárias: um diagnóstico preciso e realizado o mais cedo possível; um programa de intervenção sistemático, com várias horas por semana, de comprovada eficácia e com uma atenção muito grande para a melhoria da auto-estima e da confiança por parte do disléxico. Para que haja sucesso na intervenção, é de fundamental importância o papel da escola, da família e dos profissionais especializados. Somente uma conjugação de esforços leva a resultados favoráveis. Todos podem aprender, desde que bem ensinados.

Os professores sabem identificar quem não consegue assimilar os conteúdos?
Em geral, os professores não encontram grandes dificuldades para identificar, entre seus alunos, aqueles que enfrentam algum tipo de limitação ou problema para aprender. Não é difícil dizer quem vai bem e quem vai mal na leitura e na escrita. Por outro lado, o professor não está preparado para realizar exames e diagnósticos, não consegue definir o problema que leva ao baixo desempenho do aluno.®MDNM¯ Cabe a ele identificar a situação, levar o caso dos alunos para uma discussão com a coordenação pedagógica, explicar aos pais o que está acontecendo e, se necessário, fazer a indicação para profissionais especializados. Mesmo que o professor tenha conhecimentos mais aprofundados sobre problemas de desenvolvimento, não cabe a ele rotular as crianças. Não é este o seu papel.

Qual o saldo, dessa rotulagem?
Os rótulos, usados de modo incorreto, sem fundamentação, acabam funcionando como uma espécie de tatuagem que se impregna na criança deixando marcas que dificilmente serão apagadas.

A solução para muitos desses problemas está longe da escola?
Não haverá solução sem um verdadeiro envolvimento e compromisso da escola. Problemas de aprendizagem devem ser naturalmente esperados, em qualquer situação. Encaminhar as crianças para profissionais especializados corresponde a uma parte da ajuda que se pode dar a elas. Fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, médicos e outros profissionais da área do desenvolvimento infantil e da aprendizagem podem colaborar muito, principalmente quando se preparam para lidar com esse tipo de problema. Porém, esta é uma parte de um projeto de intervenção que se destina a atacar o distúrbio de um modo mais abrangente e eficaz. A escola, na figura de seus professores, deve preparar-se para compreender e atuar com crianças apresentando dificuldades na aprendizagem. Caso isto não aconteça, os resultados tenderão a ser limitados.

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