As ‘‘transições democráticas’’ na América Latina ocorridas na última década e meia do século passado têm demonstrado ser bastante frágeis. Portanto, é natural nos perguntarmos seriamente – e com profunda preocupação – que futuro pode aguardar a democracia na América Latina.
Existem países com graves problemas e bastante conhecidos – como Colômbia, Equador, Peru, Venezuela e, inclusive, Argentina – para citar apenas aqueles que mais espontaneamente vêm à nossa mente e segundo as dificuldades específicas de cada um: o narcotráfico e os movimentos guerrilheiros nos quais se infiltrou o negócio internacional da droga; a desordem administrativa e a decomposição do aparelho do Estado em seu próprio funcionamento; a corrupção que flui como uma mancha de petróleo no oceano no âmbito das chamadas elites dirigentes; o populismo autoritário, civil ou militar, a incapacidade para aplicar políticas coerentes e eficazes de desenvolvimento sustentado...
Assim, e por diferentes motivos, os problemas podem tornar-se explosivos, persistindo na região uma situação deprimente de subdesenvolvimento mais ou menos crônico, estimulado pelo escandaloso e odioso dualismo entre o nível de vida das elites (de ostentação) e o comum da população (miserável), o que dificulta especialmente a estabilidade democrática e institucional e representa um grave problema para o futuro.
Escrevia recentemente Carlos Fuentes, o grande e respeitado escritor mexicano, longe de ser radical: ‘‘Transcorridos 20 anos desde a crise da dívida e dez desde o fim da guerra fria, a democracia latino-americana está em perigo. Cento e noventa e seis milhões vivem na pobreza extrema com US$ 30 por mês. Aumentam o desemprego e a marginalização urbana.’’
Não creio que as receitas do neoliberalismo, nem a chamada ‘‘economia de cassino’’ especulativa, hoje vigente no plano internacional, espoliada pela mobilidade dos capitais que se trasladam à velocidade da luz, em busca tão-somente do lucro pelo lucro, sem vinculações nacionais, introduzindo no sistema quantidades imensas do chamado ‘‘dinheiro sujo’’, sejam capazes de contribuir para ajudar a América Latina. Muito ao contrário: contribuíram poderosamente, nos últimos dez anos, para agravar a situação em que se encontra, por si só preocupante.
Foi nesse contexto geral, que acredito indiscutível, que o grande vizinho do Norte lançou, na recente reunião realizada em Quebec, o grande projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que proporcionará (segundo o otimismo oficial) prosperidade e bem-estar a todos os países americanos do Norte e do Sul.
O projeto não é novo e propõe, entre outras coisas, enfraquecer e possivelmente destruir o Mercosul (o Mercado Comum do Cone Sul integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) como pólo regional de desenvolvimento independente e solidário que mantém relações com a União Européia. Clinton já quis realizá-lo mas, pelas dificuldades encontradas num Congresso extremamente reticente às suas iniciativas, viu-se obrigado a adiar a questão sine die.
Bush renovou o tema ao seu modo, isto é, com seu estilo direto e retilíneo, destacando a defesa dos interesses próprios dos Estados Unidos (que, em sua opinião, coincidem com os do mundo, já podemos apreciá-lo com relação ao Protocolo de Kyoto) e as ‘‘virtudes universais’’ do livre comércio na resolução dos problemas dos povos.
A ‘‘operação’’ teve algum êxito: deixou o Brasil praticamente isolado, atraiu o Chile para a zona de influência norte-americana e criou um evidente afastamento em relação ao Mercosul por parte da Argentina, agora dirigida pelo todo-poderoso Domingo Cavalllo, que integrou a equipe do ex-presidente Carlos Menem.
Curiosamente, os presidentes do Chile e da Argentina, Ricardo Lagos e Fernando de la Rúa, respectivamente, consideram-se social-democratas e ambos são membros da Internacional Socialista...
Ao contrário do que seria de se esperar, a ‘‘operação’’ norte-americana destinada a tutelar o Mercosul não motivou, até o momento, nenhuma reação significativa na União Européia, nem mesmo na Espanha e em Portugal, países ibéricos que proporcionaram uma das principais contribuições à matriz cultural ibero-americana. Nem mesmo um gesto concreto de ajuda nem uma palavra de solidariedade política!
Assim caminham as coisas na Europa, na América Latina e no mundo... De todo modo, e por favor, prestemos atenção ao Mercosul. Dentro de um ano acontecerá em Madri a reunião de cúpula euro-latino-americana. Não haverá maneira, até então, de dar um alento de esperança ao Mercosul? Seria, acreditamos, de nosso maior – e essencial – interesse, para os espanhóis, portugueses e os europeus...
- MARIO SOARES foi presidente de Portugal entre 1986 é 1996 (IPS)

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