Até que enfim! O ano vai começar, assim que passar a ressaca do Carnaval e a incompreensível inércia do empresariado brasileiro, até que a folia momesca se acalme.
Somos um país rico, que pode se dar ao luxo de ficar sem faturar como devia, por uns 60 dias! Isso mesmo: janeiro e fevereiro (porque muitos emendam depois da quarta-feira de cinzas e o ano só começa em 2 de março).
Claro que estou generalizando, mas a maioria das empresas brasileiras, por vontade própria ou de outros, jogou fora simplesmente 16,4% do ano!
Evidente que isso não será tudo. Vem aí a Copa do Mundo, as eleições e um ano cheio de feriadões de sextas-feiras e segundas-feiras emendadas nos finais de semana.
Uma maravilha - para as empresas que não pensam assim e aproveitam a mordômica posição tropicalista brasileira, para ganhar mercado, conquistar mentes e clientes, formar imagem de marca e vender cada vez mais.
Juro que cansei de ouvir: ‘‘Vamos falar sobre isso em março ou abril..., ou ‘‘Não adianta, só depois do Carnaval, porque antes disso ninguém compra...
E não ouvi isso só de clientes! Ouvi de profissionais de agências, de veículos e de fornecedores de propaganda. Até profissionais de marketing.
Será que não dá para entender que o mercado não pára? Que está em constante movimento, ebulição, consumo, escolha, busca de informações, decisão, rejeição, adoção, opinião e mutação?
Num mercado cada vez mais competitivo (e cansamos de ouvir, ler e escrever sobre este fato), não há mais espaço para jogar 1% de resultado possível fora. Quanto mais 2 meses, ou quase 4 se juntarmos todos os feriadões e eventos de 98. Isso vai dar quase 40% do ano!
Quer dizer que temos de fazer em 60% do tempo o que poderíamos e deveríamos fazer em 100%. As empresas têm que conseguir o necessário e vital lucro, neste ano, em cerca de 230 dias - porque vão jogar fora o resto do ano, de férias, veraneando, torcendo pelo Brasil na Copa, curtindo os feriadões, trabalhando a meia força, investindo menos do que deveria (daí já bate um medo de não dar resultado...). E não falo dos finais de semana...
Desejei que este fosse um ano 100%, no primeiro dia do ano. Alguns concordaram, outros não. Não importa. O fato é que teremos que sobreviver com um ano mais ou menos 60% - precisando que ele rendesse 120%.
E parece que só tem um jeito, então: trabalhar em dobro!
Mas é claro que isso vai acontecer, na vida da grande maioria das empresas e dos trabalhadores brasileiros. Pra quê?
Evidente que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil não pode mesmo subir... por isso vamos continuar assistindo ao aumento nas demissões, aos cortes nas despesas, à redução da lucratividade, à diminuição dos investimentos e todas as nefastas consequências deste círculo vicioso, ocasionado pelo ócio desmedido. E despropositado. As empresas internacionais e algumas nacionais que levam seu trabalho a sério não têm tempo a perder esperando o Carnaval passar, e continuam avançando sobre o mercado - enquanto dezenas de marcas brasileiras tradicionalíssimas desaparecem.
Segundo informações do IBGE, o PIB brasileiro cresceu só 3% em 97 e as perspectivas são de igualar ou reduzir este índice para 98. Também, pudera! Trabalhando tanto assim...
Outro dado importante, muito significativo, é o de que os investimentos publicitários, alavanca fundamental no estímulo ao consumo e à produção, continuam estagnados no patamar de 1% do PIB, enquanto que nos Estados Unidos representam mais de 2,6%!
É outro mercado? É. É outra realidade? É. Mas é fato que os norte-americanos sabem, como ninguém, fazer marketing e comunicação, para estimular vendas, produção, geração de empregos e melhor distribuição de renda. Finlândia, Canadá, Israel, Austrália e Noruega, só para citar alguns exemplos, também têm investimentos publicitários correspondentes a mais de 2% do PIB dos seus países. Eles estão errados? Não, de forma alguma.
Eles há muito tempo perceberam que o mercado não pára e que precisa de constante estímulo, por isso são ativos o ano todo. Limitam os feriados ao mínimo possível e trabalham o máximo. Bem ao contrário do nosso país tropical, não é verdade?
Claro que generalizo, mas é a única forma de perceber um contexto que irrita e preocupa, e que talvez nem tenha solução (o que é pior). Talvez a solução seria mudar o Carnaval de data emendando-o ao Ano Novo, com mais 2 ou 3 dias de festa - para que o ano se iniciasse, na construção do futuro melhor que todos desejamos, já em janeiro. Mas isso é utopia. Não é?
Vamos, então, arregaçar as mangas e procurar trabalhar mais, o dobro, se der, para salvar um ano que já começou difícil.
Talvez porque muitos ficam esperando a banda passar.
Mãos à obra! Esta é a única solução.

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