Até quando desemprego e fome?
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de junho de 2003
Valmor Bolan 
A Fundação Seade e o Dieese no último dia 28 uma pesquisa revelando taxas recordes de desemprego e queda de renda na região metropolitana de São Paulo, as maiores desde 1985. Em abril, constatou-se que um em cada cinco trabalhadores está sem emprego. São 1,941 milhão de desempregados 110 mil a mais que o mês anterior. Desse total, 129 mil pessoas procuraram emprego em abril, quando foram criados apenas 19 mil postos de trabalho. A taxa de desocupação da População Economicamente Ativa era de 19,7% em março, aumentando para 20,6%. Outro dado importante levantado pela pesquisa foi a queda de renda do trabalhador, a menor desde a metade da década de 80. Isso significa que as pessoas estão consumindo menos do que 15 anos atrás.
Em meio a essa realidade, o brasileiro surpreende pela sua capacidade de driblar a crise. Ele faz da informalidade um meio para assegurar sua sobrevivência. É uma tendência antiga, desde os tempos da escravidão, em que os trabalhadores não tinham acesso à saúde e educação, recebiam baixíssimos salários e se submetiam a condições desumanas. Muitos trabalhadores livres e pobres (entre os senhores e escravos) viviam de favores prestados aos grandes latifundiários. Com a urbanização dos anos 40-80 do século 20, surge uma parcela de trabalhadores mal remunerados, que não consegue ascender profissionalmente, vivendo de pequenas e variadas atividades, na cultura do quebra-galho que ainda hoje prevalece na mentalidade de muitos.
Mas a grande crise do emprego no Brasil se acentuou nos anos 90, com as novas tendências no mercado globalizado. É aí que cresce surpreendentemente a informalidade. O Brasil é o terceiro País com o maior número de desempregados, atrás apenas da Índia e da Rússia. Segundo o Pnad/IBGE, entre 1989 e 1999 foram criados cerca de 11 milhões de empregos informais (assalariados sem carteira e autônomos), especialmente nos setores de comércio e serviços. A participação dos assalariados formais e dos funcionários públicos diminuiu de 49,6% para 38%, enquanto o segmento menos protegido (assalariados sem carteira ou autônomos sem direito a aposentadoria, férias, 13º salário etc.) salta de 46,2% para 57,6%. Em 1999, o Brasil possuia 38,9 milhões de trabalhadores informais.
Esperamos que o governo, diante desta realidade, tenha mais sensibilidade e busque alternativas para geração de empregos. A dignidade do trabalho é um dos direitos humanos que não pode deixar de ser preservada, porque é a partir do trabalho que a pessoa humana se realiza. O desemprego pode ser combatido com uma ética solidária em que hajam incentivos às empresas a não demitirem e darem preferência aos que também estão entrando. Torçamos que medidas eficazes minimizem esta grave chaga social.
VALMOR BOLAN é doutor em sociologia e diretor geral da Faculdade Editora Nacional (FAENAC)


