ATÉ QUANDO? - O que move a agricultura é a paixão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
A cotação do dólar não é a mesma, os juros incidem sobre a produção, há muito imposto. Diante desse quadro, agricultores do Paraná, apostam na diversificação de culturas. Mas isso não basta. Ainda falta cuidar da terra, que pede socorro. Está se exaurindo. Como prepará-la para demanda futura? Quando vamos repor a fertilidade perdida? Em entrevista à FOLHA, o engenheiro agrônomo Nelson Salim Abudi traz os conceitos comerciais que regem a agricultura e conclui: com os custos de produção, como os preços das máquinas e insumos, a agricultura sustentável no Brasil é impraticável!
Cultura de verão, cultura de inverno... A terra do Paraná não tem ''descanso''. Por quê?
A tendência moderna da agricultura aponta para a rotação. No Paraná, fazemos isso bem. Em Estados como Goiás, já é impossível, porque há seis meses de seca e seis meses de chuva. Costumo dizer que somos únicos no mundo, pois fazemos uma agricultura sem irrigação. O correto seria as propriedades investirem na diversidade, isto é, apostando em animais e em uma cultura em si. Contudo, sabemos que isso não acontece. Nosso modelo agrícola está mais voltado para a exportação.
Países da União Européia (UE), apostam no pousio. No Brasil, não se tem notícias da prática, para o descanso da terra. Quais os reflexos?
Temos, em primeiro lugar, como o maior problema da agricultura nacional, a erosão. Um segundo reflexo poderia ser o envenenamento da terra. Os Estados Unidos têm, hoje, metade de seu lençol freático condenado pelo uso em excesso de herbicidas no milho. Isso pode acontecer conosco: utiliza-se produtos sem saber se vão ou não proporcionar efeito residual à determinada terra.
Esses danos são irreparáveis?
A erosão é quase irreparável. O Paraná, com o plantio direto, com as curvas de nível, tem lutado muito contra a erosão. O preparo do solo é fundamental. Melhoramos muito, mas é importante lembrar que sempre há uma perda. A questão não é a falta de consciência do agricultor. O que falta, mesmo, é dinheiro.
Nesse conceito de agricultura comercial, quais as maiores perdas?
Nosso grande dilema é o preço das máquinas. A relação é simples: lá fora, o produto é valorizado e compra-se o maquinário necessário. No Brasil, além de as máquinas serem mais caras, o produto atinge o valor gasto com a tecnologia. Há a polarização de mercado: da máquina, dos adubos...
Hoje mais cultiva-se ou explora-se a terra?
A agricultura é citada como um setor onde a oferta e procura funciona, mas toda a parte comercial é cartelizada, tanto para a compra como para a venda, com preços fixados.
Mas o agricultor está mais para ''gigolô'' ou refém desse sistema?
O agricultor está mais para vítima. Se o produtor fizer as contas, não planta. O que move o agricultor é a paixão. Ser agricultor não é um negócio. É um estado de vida. Se só o dinheiro fosse levado em conta, provavelmente o agricultor venderia sua propriedade.
E há como virar o jogo?
É difícil. O grande aliado do agricultor seria a pesquisa, muito importante para a sociedade, mas, na ponta do lápis, para o agricultor, diminui seu lucro. O que não se pode é deixar ao ''Deus dará''. Falta ao Governo promover esse planejamento, não deixando o modelo somente ''virado para fora''. O meio rural tem pouca gente, pouco voto. Ninguém vai fazer uma greve. Tem-se pouco poder de pressão. O papel da imprensa é importante, nesse processo: a TV Senado, por exemplo, é fechada. Fica difícil para o agricultor acompanhar o que o parlamentar que teve seu voto defende.


