Carnaval é época fértil para mentir ao povo. Mas também é época para que se diga a verdade: não vai acontecer nada no Carnaval, a não ser o que sempre aconteceu. Aqueles que podem bailar, bailam. Outros, que não podemos, não bailamos. É boa a idéia de Fernando Henrique sobre os bailarinos do Carnaval. Mas o problema, não são aqueles que podem ou não podem, é bailarem aqueles que não querem bailar. Até os doentes do pé.
E nesse Carnaval, que dura o ano inteiro, todo mundo está sendo convidado compulsoriamente a participar. Pelo visto o arrasta-pé vai longe. É tempo da fuzarca que ofusca a realidade. O maestro faz a introdução e já nas primeiras notas do samba-rasgado o pessoal embarca feliz, contente sem se importar com mais nada.
Nessa altura se aplaude qualquer coisa. O governo aceitou reduzir as alíquotas do IPI sobre os veículos nacionais e importados que, junto com a redução do ICMS dos Estados, poderá aumentar as vendas do setor e impedir uma nova onda de demissões nas montadoras.
Alegria geral. ‘‘O consumidor será beneficiado’’, dizem as montadoras. ‘‘O emprego está preservado’’, dizem líderes sindicais. E é verdade, o lucro das empresas e os postos de trabalho podem estar garantidos. Mas é o deles. E o dos outros? É imbecilidade alguém imaginar que se quer a derrocada do setor automobilístico e milhares de pais de família na rua. Mas a União não está quebrada? Os Estados não estão quebrados? Como é que eles podem abrir mão de fontes de arrecadação tão importantes? E o transporte coletivo usado pela maioria da população? Vai melhorar? Vai diminuir de preço?
Os grupos sociais organizados e com poder de mobilização conseguem defender-se melhor. Os magos do ‘‘Pensamento Único’’ chamavam isso, até bem pouco tempo, de corporativismo. Um dos maiores pecados cometidos por essa gente antiga, empoeirada, que vive de reminiscências sem pensar que o futuro está aí com a sua sociedade composta por Luanas Piovanis e Tarcisinhos Meiras escovados, bem vestidos e com todos os dentes na boca.
Só que existe muita gente que não aparece na televisão. Vamos pegar um exemplo que é tido para muitos como exemplar: de São Paulo, que dizem, arrumou as suas finanças e no ano passado conseguiu, segundo a versão do governo, gastar o mesmo que arrecadou. Pois bem, São Paulo - por ser o Estado mais industrializado e com maior poder de consumo - tem como uma das suas principais fontes de renda justamente o tal do ICMS. Só que mesmo assim, entre outubro do ano passado e janeiro, a arrecadação do ICMS caiu em R$ 700 milhões.
Sempre pegando São Paulo como exemplo - onde hipoteticamente, pelo menos diz a propaganda, os desvios e desperdícios do dinheiro público são menores - não existe nem um centavo para investimentos novos. E nem mesmo antigos, que o digam as vítimas da violência, os usuários das Marginais que com as enchentes alagam e param completamente, os que precisam buscar atendimento médico público. Como é que com todos esses problemas o governador Mário Covas pode abrir mão do ICMS?
O fim é inevitável. Mas antecipar o fim é rematada besteira. Além do componente patológico que existe no gesto tresloucado.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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