O ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Guillermo Fernández de Soto, tentou bloquear, horas antes da chegada de Clinton a Cartagena das Índias, todo tipo de especulação sobre os motivos da viagem, os objetivos e as consequências do projeto em marcha: ‘‘Aos que pretendem estigmatizar e querem atribuir ao Plano Colômbia todos os males de algo que não iniciou, digo que isso é algo fantasioso, não passa de telenovela.’’ Lamentavelmente, a lógica pessimista do ‘‘pense mal e acertarᒒ presidirá não apenas o cenário colombiano, mas o de seu entorno latino-americano e dos Estados Unidos, já com o Air Force One fora de Cartagena das Índias.
O problema que o Plano Colômbia tenta resolver nem é fantasia nem é parte de uma telenovela. É muito real e sério. A primeira dimensão que convém tratar é que o conflito que o plano coloca não está limitado à Colômbia, como simbolicamente procuravam mostrar Clinton e Pastrana, ao confinarem a visita do dia 30 de agosto ao recinto cercado de muralha de Cartagena, heróica, entre outras razões, por ter rechaçado numerosas tentativas de piratas famosos, como Sir Francis Drake.
O insólito plano integra-se num cenário andino extremamente complicado, entre uma Venezuela fascinada pelo populismo e um Peru na tenacidade do autoritarismo. Em contraste com o plano desenhado por ocasião da viagem anterior de George Bush à Colômbia, há dez anos, quando o problema do narcotráfico foi tratado conjuntamente com Peru e Bolívia, agora parece que a Colômbia é usada como sendo culpada pelo problema e o eixo primordial da busca de uma solução, com o consequente alarme dos vizinhos, naturalmente nervosos, cada um com sua agenda diferenciada tanto frente aos Estados Unidos quanto em relação aos seus colegas andinos. Confirma-se, uma vez mais, a preferência norte-americana pela relação bilateral e seu pânico ancestral diante dos cenários multilaterais.
A escolha da Colômbia para esta nova estratégia regional também parece ter a ver com a percepção de que o país é politicamente mais estável do que seus vizinhos, sobretudo como sócio idôneo de Washington. A Colômbia enquadra-se perfeitamente à concepção formalista atual dos EUA: tem eleições periódicas e alternância no poder e apresenta-se como idônea justificativa para intervenções cirúrgicas que seriam questionadas, para não dizer rechaçadas de imediato, se fossem exploradas na Venezuela de Chávez ou no Peru de Fujimori. É mais factível que o novo dominó ao contrário se origine no eixo Bogotá-Cartagena do que no de Caracas-Lima. Se houver êxito, Chávez e Fujimori acolherão a causa.
Em termos colombianos, o problema central não é estritamente originado pelo narcotráfico, que atenta contra a segurança dos Estados Unidos, nem mesmo pelos enfrentamentos ideológicos, mas sim pela insegurança diária do cidadão, embora esta esteja intimamente relacionada com o tráfico de drogas. As estatísticas reveladas pelas pesquisas não são de telenovelas. Setenta por cento dos colombianos que vivem em cidades sentem-se inseguros, mas são mais de 80% os que atribuem seu medo à delinquência comum, enquanto 10% consideram que os culpados pelo pânico social são os grupos políticos ilegais. Hoje, mais ou menos como há uma década, a cada 20 minutos ocorre um homicídio, acontece um roubo a cada 15 minutos, a cada meia hora desaparece um veículo, a cada seis horas um ato terrorista é cometido e a cada três horas alguém é sequestrado.
Em nível de puro orçamento, a mensagem pouco fantasiosa é que apenas uma pequena parte dos fundos são dedicados aos temas políticos e sociais, enquanto o grosso dos fundos (onde não estão contabilizados nem os soldos nem o treinamento dos militares norte-americanos que serão enviados nesta nova missão) está reservado à área militar. Não são números de telenovela: dos US$ 1,319 bilhão, e dos US$ 860 milhões reservados para a Colômbia, a ajuda militar e a da Polícia consome mais de US$ 600 milhões. O desenvolvimento, os direitos humanos e a Justiça devem contentar-se com US$ 200 milhões.
O processo de paz, estritamente falando, receberá US$ 3 milhões. Isto se enquadra na ‘‘política de segurança’’ interna, curiosamente reclamada por uma parte da sociedade (tanto os de cima quanto os de baixo). Não se intui o compromisso, a negociação ou os termos médios, mas a solução final: a erradicação das fontes do narcotráfico e da ameaça estratégica. Observe-se que os cerca de US$ 450 milhões restantes também se dividem de maneira curiosa: US$ 170 milhões para os vizinhos da Colômbia, mas, na realidade, nunca sairão das contas bancárias dos Estados Unidos, pois servirão para pagar os gastos diretos dos norte-americanos. Um último detalhe: US$ 268 milhões ficarão no Pentágono.
Como bem apontavam observadores que não ficam chupando o dedo, o resultado significa que mais de três em cada quatro dólares do Plano Colômbia está, na realidade, destinado a consolidar a frente bélica da luta contra o narcotráfico. Falando claramente: para proteger militarmente os Estados Unidos da ameaça da droga que consome. Por isso, Juan Gabriel Toklatian, um aguçado observador colombiano e catedrático de Relações Internacionais, afirma em um dos artigos mais lúcidos, publicado no jornal ‘‘El Tiempo’’ de Bogotá, que o plano inclui sua execução ‘‘até o último homem colombiano sacrificado’’. Para isso, se colocará à disposição dos responsáveis pelo Plano ‘‘até o último dólar’’. O que o texto do plano não diz é se o êxito final também está compreendido até que se consuma a ‘‘última grama’’ de cocaína disponível.
Clinton se confessou um empedernido admirador de García Márquez: pode ver-se convertido em um de seus trágicos personagens masculinos, engolido pelos acontecimentos de Macondo, numa novela que parece como ‘‘Cem Anos de Solidão’’, já escrita em alguns manuscritos. Os agoureiros de telenovelas acreditam que já viram esse filme e que se parece muitíssimo com o Vietnã. Há apenas uma diferença: antes, a aventura começou para livrar parte da humanidade da ameaça marxista e, agora, justifica-se para livrar o mercado norte-americano da droga em suas fontes naturais.
- JOAQUÍN ROY é catedrático de Relações Internacionais da Universidade de Miami (IPS)

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